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Quem vai cuidar de nós? Cardiologista alerta para crise silenciosa na medicina brasileira

Dr. Israel Reis aponta crescimento desordenado de faculdades, falhas na formação médica e riscos diretos para os pacientes

Por Rafa
domingo, 08 de fevereiro de 2026
Imagem de Quem vai cuidar de nós? Cardiologista alerta para crise silenciosa na medicina brasileira

O crescimento acelerado do número de faculdades de Medicina no Brasil tem gerado um alerta cada vez mais frequente entre especialistas da área da saúde. Durante o Momento IDM Cardio, no Jornal do Meio Dia, o médico cardiologista Dr. Israel Reis fez uma análise crítica sobre o que classificou como uma “crise silenciosa na medicina brasileira”, destacando impactos diretos na formação profissional e na segurança dos pacientes.

Segundo o cardiologista, o Brasil já supera países como Estados Unidos e China em número de escolas médicas.

“Em 1990 existiam apenas 77 escolas médicas no país. Hoje nós estamos falando de cerca de 600 faculdades, um crescimento de quase cinco vezes”, pontuou.

Dr. Israel relembrou sua trajetória acadêmica para exemplificar a mudança no perfil do ensino médico.

“Quando fiz vestibular, em 1999, havia cerca de 300 vagas por ano na Bahia. Era um desafio enorme entrar na Universidade Federal. Medicina sempre exigiu muito estudo, muito sacrifício”, afirmou.

Para o cardiologista, o aumento desenfreado de cursos ocorreu sem planejamento adequado.

“A ideia inicial era suprir a falta de médicos em regiões mais afastadas do país, mas isso se perdeu. A abertura de faculdades virou bandeira política e negócio para grandes grupos educacionais”, criticou.

Ele destacou que aproximadamente 80% das escolas médicas atuais são privadas, muitas sem estrutura adequada.

“Faculdades foram abertas sem hospital-escola, sem professores experientes e sem critérios técnicos mínimos. Isso compromete diretamente a qualidade da formação”, alertou.

Em Feira de Santana, por exemplo, Dr. Israel ressaltou que já são cinco cursos de Medicina, sendo apenas um público.

“Quantos hospitais públicos novos foram abertos para suportar essa quantidade de alunos? Quantos professores qualificados existem para isso?”, questionou.

A preocupação, segundo o médico, vai além do mercado de trabalho e atinge a ponta do sistema: o paciente.

“Eu vejo no consultório exames sem critérios, médicos recém-formados sem raciocínio clínico, sem especialização. Medicina não é curso de fim de semana”, afirmou.

Ele citou dados de uma avaliação nacional recente. “De mais de 500 faculdades avaliadas, 80% tiveram notas baixíssimas. Apenas 14% alcançaram notas altas, e a maioria são universidades públicas”, destacou.

Dr. Israel foi enfático ao relacionar a crise à proliferação de práticas sem respaldo científico.

“Estamos vendo modismos médicos, uso indiscriminado de hormônios, soros e vitaminas, muitas vezes por profissionais sem registro de especialidade. Isso é muito grave”, disse.

Outro ponto levantado foi o impacto social e econômico da expansão desordenada. Atualmente, o Brasil forma cerca de 50 mil médicos por ano.

“Já temos quase 600 mil médicos e a projeção é chegar a 1,2 milhão em 2030. Não há hospitais nem vagas de trabalho na mesma proporção”, alertou.

Segundo ele, a consequência é a precarização do trabalho médico. “Convênios que pagavam 60 reais por consulta já falam em pagar 30, depois 20, porque existe um exército de profissionais sem emprego”, explicou.

O cardiologista defendeu que a discussão extrapole o meio médico e chegue à sociedade.

“Quem vai cuidar de nós daqui a dez anos? Quem vai atender nossos pais? Essa não é uma discussão só do médico ou do Conselho, é de toda a sociedade”, ressaltou.

Dr. Israel também fez críticas a políticas públicas anteriores, como o programa Mais Médicos.

“Levou médicos para regiões carentes, mas os indicadores de saúde não melhoraram. Faltaram critérios técnicos”, afirmou.

Ele reforçou a necessidade de cobrança aos representantes políticos. “Se a sociedade não participa dessa discussão, outros decidem por nós. Estamos falando da preservação da vida”, concluiu.

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