Mudança anunciada em consenso internacional reforça que a síndrome não está restrita aos ovários e envolve alterações metabólicas e hormonais
A Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) passou por uma mudança importante de nomenclatura e, desde o consenso divulgado em 26 de maio de 2026, passa a ser denominada Síndrome Ovariana Metabólica e Poliendócrina (SOMP). A alteração representa uma mudança na forma de compreender a condição, que não deve mais ser vista apenas como uma doença relacionada à presença de cistos nos ovários.
A ginecologista Dra. Márcia Suely explicou que a nova nomenclatura busca corrigir uma interpretação limitada sobre a síndrome e ampliar o olhar para os efeitos que ela pode provocar em todo o organismo.

“Não mudou só uma letra. Mudou completamente a interpretação. A nomenclatura visa consertar um erro de interpretação do passado, onde se achava que era uma doença ovariana e que causava apenas cistos.”
Segundo a especialista, os chamados “cistos” observados nos ovários, em muitos casos, são, na realidade, folículos ovarianos que ficaram retidos por não ocorrer a ovulação. Além disso, existem mulheres que apresentam a síndrome mesmo sem alterações características no ultrassom.
A inclusão dos termos “metabólica” e “poliendócrina” na nova nomenclatura destaca que a condição envolve não apenas os ovários, mas também alterações relacionadas ao metabolismo e a diferentes hormônios.
De acordo com Dra. Márcia, mulheres com a síndrome podem apresentar maior risco de resistência à insulina, diabetes tipo 2, alterações no colesterol e doenças cardiovasculares.
“Essa mulher tem que ser acompanhada durante a vida toda. Ela precisa de um olhar diferente do que apenas cistos e apenas ovário.”
A médica também destacou que a condição pode envolver alterações em hormônios como insulina, LH e FSH, além dos andrógenos, como a testosterona.
A ginecologista alertou que alguns sinais devem chamar a atenção das mulheres e motivar a busca por avaliação especializada. Entre eles estão acne persistente na fase adulta, aumento de pelos em regiões como rosto, queixo e tórax, queda de cabelo e alterações no ciclo menstrual.
A dificuldade para engravidar também pode estar relacionada à síndrome, principalmente em razão da ausência ou irregularidade da ovulação.
A especialista reforçou, porém, que obesidade não é obrigatória para o diagnóstico. Mulheres magras também podem apresentar a condição e seus sinais característicos.
“Muita gente achava que para ter a síndrome precisava ser obesa. Não. Existem muitas mulheres magras que têm acne e outros sinais.”
Outro ponto destacado durante a entrevista foi a importância de não considerar o ultrassom como único exame para identificar a síndrome.
O diagnóstico é baseado na combinação de critérios clínicos, laboratoriais e de imagem. De acordo com a médica, a presença de dois desses três parâmetros pode ser suficiente para estabelecer o diagnóstico, após a avaliação profissional e a exclusão de outras doenças.
“Não existe um exame que faça o diagnóstico. Na verdade, é um conjunto de fatores que fazem com que a gente junte as pecinhas e faça esse diagnóstico.”
Por isso, uma mulher pode apresentar sinais clínicos e alterações laboratoriais compatíveis com a síndrome mesmo sem apresentar os chamados ovários policísticos no ultrassom.
A mudança de nomenclatura também reforça a necessidade de um tratamento personalizado. Dra. Márcia explicou que não existe um único tratamento considerado ideal para todas as mulheres.
O uso de anticoncepcionais pode ser indicado para algumas pacientes, especialmente para controle de sintomas como acne e irregularidade menstrual, mas a médica ressalta que o medicamento não elimina a causa da síndrome.
A metformina pode ser utilizada em pacientes que apresentam resistência à insulina, enquanto medicamentos destinados à perda de peso podem ter indicação em situações específicas. Segundo a ginecologista, as chamadas “canetas emagrecedoras” não tratam diretamente a síndrome, embora a perda de peso, quando necessária, possa contribuir para melhorar alterações metabólicas e hormonais.
“Não existe o melhor tratamento. Existe o tratamento adequado para cada paciente. O tratamento deve ser individualizado.”
A especialista também esclareceu que a síndrome não desaparece necessariamente com o avanço da idade ou com a chegada da menopausa.
Embora a mulher deixe de menstruar e alguns sintomas relacionados à ovulação possam mudar, as alterações metabólicas e hormonais associadas à condição podem permanecer.
“É uma doença crônica sem cura, mas ela tem controle. Controlando os sintomas, a paciente pode engravidar, pode deixar de ter acne e pode ter uma vida normal.”
Por isso, o acompanhamento deve continuar ao longo da vida, inclusive durante a menopausa. A médica destacou que a avaliação individual também é fundamental na escolha de terapias hormonais, já que determinados hormônios podem agravar alguns quadros.
Para Dra. Márcia, a principal importância da nova nomenclatura está justamente em ampliar a compreensão sobre a condição e evitar que mulheres sejam diagnosticadas ou tratadas apenas a partir da aparência dos ovários.
“Cada pessoa vai ter um olhar. É por isso que o nome mudou: um olhar diferente e um tratamento diferenciado, porque cada mulher é única.”
A ginecologista reforçou ainda que informação e acompanhamento médico são fundamentais para identificar os sinais da síndrome, controlar os sintomas e reduzir os riscos associados às alterações metabólicas e cardiovasculares ao longo da vida.