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Acordo Mercosul–União Europeia pode gerar ganhos bilionários, mas traz riscos de desindustrialização, avalia economista

Tratado promete ampliar exportações e investimentos, mas acende alerta para a indústria brasileira e para o uso de exigências ambientais como barreiras comerciais

Por Rafa
terça-feira, 13 de janeiro de 2026

O novo acordo econômico entre o Mercosul e a União Europeia, considerado o maior tratado de livre comércio do mundo, com cerca de 700 milhões de consumidores, deve provocar impactos profundos nas economias dos dois blocos. Para o economista Gesner Brehmer, os efeitos serão amplos, combinando oportunidades históricas de crescimento com desafios estruturais, especialmente para países como o Brasil.

Segundo ele, apenas cerca de 24% das exportações do Mercosul para a União Europeia entram atualmente livres de tarifas, cenário que tende a mudar radicalmente com o acordo.

“O principal ganho imediato reside na eliminação progressiva de barreiras para setores onde o Mercosul já é uma potência global, mas que sofriam muito com o protecionismo europeu”, explicou.

Entre os setores mais favorecidos, o economista destaca o agronegócio. Produtos como carne bovina, carne de frango, açúcar e etanol passarão a contar com cotas significativas de tarifa zero.

“Já estamos estimando que o Brasil possa ampliar suas vendas ao bloco europeu em bilhões de dólares nos próximos dois anos”, afirmou.

Outro ponto positivo é o acesso a insumos e tecnologia. A redução de tarifas sobre máquinas, equipamentos e produtos químicos europeus, que hoje chegam a cerca de 20%, tende a diminuir custos de produção e favorecer a modernização industrial no Mercosul.

“Além disso, o acordo funciona como um selo de segurança institucional e ambiental, o que pode atrair investimentos estrangeiros”, pontuou.

Foto: Arquivo Pessoal

Para o consumidor, Brehmer ressalta que o aumento da concorrência deve resultar em preços mais baixos e maior variedade de produtos.

“Com a queda dos impostos de importação, vinhos, azeites, queijos e automóveis tendem a ficar mais baratos no longo prazo”, disse.

Apesar dos ganhos, o economista alerta para riscos importantes. Um deles é a desindustrialização.

“A indústria já vem perdendo participação na geração de riqueza no Brasil, e esse acordo pode potencializar esse processo”, avaliou.

Setores como máquinas e equipamentos, têxtil e farmacêutico podem sofrer forte pressão competitiva.

“Estamos falando de empresas altamente subsidiadas e tecnologicamente superiores. Sem uma política interna de fomento, o Mercosul corre o risco de se tornar ainda mais dependente da exportação de commodities”, alertou.

O setor automotivo também é visto com cautela. Embora haja prazos de até 15 anos para a abertura total, Gesner observa que a produção local de veículos de maior valor agregado pode ser substituída por importações europeias.

“Pode sobrar ao Mercosul apenas modelos de menor complexidade tecnológica”, afirmou.

Do lado europeu, o acordo tende a impulsionar a indústria e o setor de serviços. “A União Europeia é a grande vencedora em produtos de alto valor agregado”, destacou o economista. Tarifas de até 35% sobre automóveis, autopeças, máquinas e produtos químicos devem cair a zero, garantindo vantagem competitiva frente a concorrentes norte-americanos e asiáticos.

Ao mesmo tempo, produtores agrícolas europeus, sobretudo da carne bovina, temem a concorrência do Mercosul. Para mitigar esses efeitos, o bloco adotará mecanismos como cotas limitadas, cláusulas de salvaguarda, subsídios via Política Agrícola Comum e exigências ambientais rigorosas.

“Essas medidas funcionam como filtros para proteger o mercado interno europeu”, explicou.

Para o Brasil, as projeções apontam ganhos relevantes. De acordo com estudos citados por Gesner, o impacto acumulado no PIB brasileiro pode chegar a 0,46% até 2040.

“À primeira vista parece pouco, mas isso representa cerca de R$ 50 bilhões adicionados à economia”, ressaltou.

O acordo também deve elevar investimentos em 0,12%, fator considerado essencial para o crescimento de longo prazo. Entre os setores vencedores, o economista cita carnes, açúcar, etanol, café solúvel, indústria química, calçados de couro, software e tecnologia da informação.

Por outro lado, segmentos como máquinas e equipamentos, têxtil, farmacêutico e até as contas públicas enfrentarão maior pressão.

“As empresas locais terão de competir diretamente com empresas europeias também em licitações governamentais”, observou.

Um dos pontos mais sensíveis do acordo envolve as exigências ambientais da União Europeia, como o Green Deal e a lei antidesmatamento. Para Gesner, o tema é complexo. “Na minha opinião, funciona tanto como um motor de modernização quanto como um potencial instrumento de protecionismo”, avaliou.

Ele alerta que critérios considerados não científicos, como exigências excessivas de geolocalização ou a classificação de áreas do Cerrado como florestas, podem se tornar barreiras não tarifárias. “Existe uma linha muito tênue entre preocupação ambiental legítima e reserva de mercado”, afirmou.

Como estratégia, o economista defende diálogo e mecanismos de salvaguarda bilateral. “O Brasil precisa garantir que novas regras ambientais não mudem drasticamente o jogo de forma unilateral”, disse.

Para ele, a principal mudança é política e estratégica. “O Brasil deixa de ser apenas alvo das regras europeias e passa a ter um assento à mesa para contestar barreiras injustificadas, dentro dos limites da sustentabilidade”, concluiu.

*Com informações do repórter JP Miranda

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