Afastamentos por transtornos mentais crescem quase 80% em dois anos no país
Com o avanço dos casos de ansiedade e depressão, o número de trabalhadores afastados por transtornos mentais cresceu ao menos 79% em dois anos no Brasil. O dado consta em levantamento da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT), com base em informações do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
O total de licenças concedidas passou de 219,8 mil em 2023 para 393,6 mil em 2025, considerando dados até novembro, um aumento de 79,1% mesmo sem o fechamento de dezembro. Transtornos depressivos e ansiosos responderam por 86% dos afastamentos no período. As licenças por transtornos ansiosos subiram 92%, enquanto os afastamentos por episódios depressivos e transtorno depressivo recorrente cresceram 71%, chegando a 182.937 casos, o equivalente a um trabalhador afastado por depressão a cada três minutos.
Segundo o médico especialista em Medicina do Trabalho e advogado, Dr. Luccas Almeida, o cenário atual é resultado de um conjunto de fatores que se intensificaram nos últimos anos.
“Essa preocupação vem desde 2023, depois do período da pandemia, do qual ninguém passou ileso. Hoje, muitos afastamentos previdenciários têm ocorrido principalmente por ansiedade e depressão”, afirmou.
De acordo com dados do Ministério da Saúde citados por Dr. Luccas, a ansiedade já figura como a quarta principal causa de afastamento do trabalho no Brasil. Ele também destacou a entrada em vigor da nova Norma Regulamentadora nº 01, que passará a valer em maio, trazendo de forma mais clara a obrigatoriedade de avaliação dos riscos psicossociais nas empresas.
“A norma trata diretamente da saúde mental dentro das organizações. A partir do momento em que discutimos fatores de risco psicossociais, deixamos de falar de saúde mental fora do trabalho e passamos a tratar do tema dentro do ambiente laboral”, explicou.
Outro ponto abordado na entrevista foi a chegada da Geração Z ao mercado de trabalho, jovens nascidos a partir dos anos 2000, muitos deles impactados diretamente pelo isolamento social durante a pandemia.
“Essa geração teve suas relações interpessoais bastante afetadas. Eles estavam com 18, 19 anos no período da pandemia, e isso influenciou profundamente a forma como pensam, se relacionam e encaram o trabalho”, pontuou.
Segundo o especialista, diferentemente das gerações anteriores, a Geração Z não associa necessariamente o sucesso à carreira profissional.
“Eles buscam mais qualidade de vida, tempo com a família, cuidados com a saúde física e mental. Não aceitam mais ambientes excessivamente pressionados, baseados apenas em metas e cobrança por resultados”.
Para Dr. Luccas, esse choque de gerações exige mudanças na forma de gestão. “Os gestores precisam entender que gerações diferentes pensam de formas diferentes. Se tratarmos todos de forma igual, não conseguiremos extrair o melhor de cada um”, destacou.
O médico também ressaltou que a saúde mental não depende apenas do ambiente de trabalho, mas de uma série de fatores que começam dentro de casa.
“Quando falamos em saúde mental, estamos falando de qualidade de vida. Isso envolve alimentação, atividade física, autocuidado e, principalmente, o apoio familiar. A família é a principal base da sociedade”, afirmou.
Ele alertou que problemas familiares somados a ambientes profissionais tóxicos podem funcionar como gatilhos para transtornos mentais.
“Trabalhos com excesso de pressão, assédio moral, falta de reconhecimento e metas abusivas podem agravar quadros de ansiedade, depressão e levar à síndrome de burnout”.
Sobre a síndrome de burnout, Dr. Luccas explicou que o diagnóstico é complexo e feito por exclusão.
“Para diagnosticar o burnout, é preciso afastar outros transtornos mentais. Ele está diretamente relacionado ao trabalho desempenhado e é hoje considerado, por equiparação, um acidente de trabalho”, explicou.
Apesar disso, ele reforça que ansiedade e depressão ainda lideram os afastamentos, justamente por estarem muitas vezes associadas a fatores pré-existentes, que são agravados pelo trabalho.
Entre os avanços, o especialista destacou a quebra de tabus. “Hoje não se fala mais de saúde mental como ‘frescura’ ou ‘mimimi’. Transtornos mentais são tratados como doenças, assim como hipertensão ou diabetes”, afirmou.
No entanto, ele aponta desafios importantes, como a dificuldade de acesso ao tratamento. “O acesso a psiquiatras e psicólogos ainda é limitado. Muitas vezes o paciente espera meses por uma consulta, o que dificulta o tratamento adequado”, relatou.
Ao falar sobre relações humanas, Dr. Luccas fez um alerta sobre o comportamento cada vez mais individualista da sociedade.
“As pessoas estão mais egocêntricas, voltadas para si. Paramos de ouvir o outro e passamos apenas a escutar para responder. Isso fragiliza as relações e contribui para o adoecimento mental”, observou.
O especialista reforçou a importância do cuidado integral com a saúde e deixou seu contato para quem quiser obter mais informações.
“Não existe nada mais importante na nossa vida do que a nossa saúde”, concluiu.