Levantamento aponta presença significativa de valores conservadores entre jovens de 16 a 24 anos, mas mostra que eles não são mais conservadores que as gerações mais velhas e apresentam posições diferentes conforme o tema.
A ideia de que a Geração Z estaria se tornando mais conservadora do que as gerações mais velhas não encontra respaldo nos dados de uma pesquisa realizada pela Quaest, a pedido do instituto More in Common. Embora uma parcela expressiva dos jovens brasileiros de 16 a 24 anos se identifique com posições conservadoras, os índices são inferiores aos observados em faixas etárias mais velhas.
Entre os jovens, 68% dos homens e 62% das mulheres afirmaram se identificar como pelo menos um pouco conservadores. Para o cientista social Diego de Menezes, entretanto, os números precisam ser analisados com cautela, já que a identificação como "um pouco conservador" não significa necessariamente uma adesão integral ao conservadorismo em todas as pautas.
"Ela pode se identificar como conservadora em algumas pautas e um pouco progressista em outras. Então é importante ter essa clareza de que esses dados têm que ser lidos com certa cautela", explicou.
Segundo Diego, o principal dado que pode ser extraído do levantamento é a presença significativa do conservadorismo entre os jovens, especialmente quando o assunto envolve questões morais, mas não a conclusão de que essa geração seja mais conservadora do que as anteriores.
"O que ele mostra é que você tem uma incidência importante, significativa do conservadorismo na população como um todo e também na juventude. Então é isso que é possível afirmar a partir dessa pesquisa", afirmou.
A pesquisa revela que o comportamento da juventude muda de acordo com o assunto analisado. Em questões relacionadas à orientação sexual, por exemplo, os jovens apresentaram, em alguns casos, respostas menos conservadoras do que as faixas etárias mais velhas.
Entre os jovens de 16 a 24 anos, 76% concordaram total ou parcialmente que casais gays devem ter o direito de adotar crianças, percentual superior aos 61% registrados no conjunto da população.
Entre as mulheres jovens, o índice chegou a 83%. Entre os homens da mesma faixa etária, 70% concordaram com a afirmação.
Para Diego, esse resultado mostra que não é possível classificar politicamente toda uma geração a partir de uma única pauta.
"Nesse caso, os jovens se apresentaram menos conservadores no geral. Isso também se reflete na pergunta sobre se a homossexualidade deve ser vivida entre quatro paredes, de maneira reservada. Os jovens foram os que menos concordaram com essa afirmação", destacou.
Na questão sobre a necessidade de manter a homossexualidade de forma reservada, 53% dos jovens concordaram total ou parcialmente com a afirmação, enquanto o percentual geral chegou a 74%. Segundo o pesquisador, a concordância também aumenta entre as faixas etárias mais velhas.
O levantamento também dialoga com um fenômeno já observado em outras pesquisas sobre opinião pública no Brasil: a combinação de posições conservadoras em pautas de costumes com opiniões mais progressistas em outras áreas.
De acordo com Diego, essa combinação não é necessariamente uma novidade no comportamento político brasileiro.
"Temos uma incidência significativa do conservadorismo no Brasil, sobretudo em pautas morais, ligadas à questão de gênero e à orientação sexual. Entretanto, em outras pautas, a população tende a ter opiniões mais alinhadas com o progressismo", explicou.
Para o cientista social, essa aparente contradição ajuda a explicar por que determinados grupos podem concordar com uma pauta de um campo político e, ao mesmo tempo, rejeitar outras ideias tradicionalmente associadas ao mesmo campo.
"A gente tem ali uma pluralidade que vai incidindo de forma diferente no discurso público. Um grupo político pode convencer parcialmente em determinado assunto, enquanto outro grupo convence em outro", afirmou.
Outro dado destacado pelo pesquisador é a identificação ideológica. Apesar da presença de posições conservadoras entre os jovens, o levantamento não aponta a juventude como a faixa etária mais identificada com a direita.
No conjunto da população, 37% se identificaram como muito ou pouco de direita. Entre os jovens de 16 a 24 anos, o índice ficou em 32%. Já entre pessoas com 65 anos ou mais, a identificação chegou a 54%.
Para Diego, os números reforçam que não há evidência, na pesquisa, de que a juventude brasileira seja mais alinhada à direita do que os mais velhos.
"A gente também não percebe o fato de que a juventude seria mais de direita. A gente percebe uma parcela significativa da juventude de direita, mas ela não é tão expressiva quanto a identificação como conservador", analisou.
Um dos resultados que mais chamaram a atenção do cientista social aparece quando a pesquisa analisa especificamente a identificação com o bolsonarismo.
Entre os homens de 16 a 24 anos, 42% afirmaram se identificar como muito ou pouco bolsonaristas. O percentual supera o registrado entre os homens de todas as faixas etárias consideradas no conjunto da pesquisa, que ficou em 34%.
Entre as mulheres jovens, o índice foi de 25%, enquanto o resultado geral da faixa etária chegou a 32%.
Diego considera que esse recorte merece uma análise específica, principalmente diante da atuação política nas redes sociais.
"Isso mostra uma parcela da juventude que está mais articulada dentro do bolsonarismo do que necessariamente com uma atuação política identificada com campos mais amplos, como ser de direita", afirmou.
O pesquisador ressalta, porém, que ainda não é possível estabelecer uma relação direta de causa e efeito entre o consumo de conteúdo político na internet e os resultados da pesquisa.
"É uma hipótese possível de ser investigada com mais calma. A gente precisa analisar com mais cuidado, mas o que podemos perceber claramente é que existe um processo de discussão pública e política sobre o assunto que é complexo", ponderou.
A atuação de influenciadores digitais e grupos organizados nas redes sociais também aparece como uma possível explicação para parte dos resultados. Segundo Diego, movimentos conservadores passaram a ocupar diferentes espaços da internet e desenvolver estratégias de comunicação voltadas ao público jovem.
Entre os efeitos desse processo estaria a disseminação de discursos críticos ao feminismo e a movimentos ligados à defesa dos direitos das mulheres.
"Na própria internet você teve uma articulação e organização de militância conservadora e de direita que atua em diversos espaços e que conseguiu ter uma incidência na juventude", afirmou.
O cientista social, contudo, reforça que essa possibilidade ainda precisa ser investigada por meio de outros estudos.
"Ainda é cedo para afirmar. Precisamos analisar com mais calma, mas existe um processo de discussão pública e de disputa política que mostra essa diversidade e pluralidade de pensamentos", disse.
Para Diego, um dos principais resultados do levantamento é justamente a necessidade de evitar generalizações sobre a Geração Z. As diferenças entre homens e mulheres e entre os temas abordados mostram que a juventude apresenta múltiplas posições políticas.
"Ao pensar a Geração Z, precisamos pensar em múltiplas identidades. É um grupo muito mais complexo. A ideia de Geração Z engloba grupos muito distintos, com diferenças em relação a gênero, raça e questão social", destacou.
Na avaliação do pesquisador, a pesquisa demonstra que existe uma presença relevante de valores conservadores entre os jovens brasileiros, principalmente em determinadas questões morais. Porém, os dados não sustentam a tese de que a juventude seja mais conservadora do que as gerações mais velhas.
"É importante pensar que não podemos tratar a Geração Z como algo homogêneo. Há uma importante incidência de pautas conservadoras, sobretudo nas questões morais, que também se expressa nessa geração, mas isso não significa que ela seja mais conservadora que as demais", concluiu.