Com estímulos constantes e sensação de recompensa imediata, comportamento tende a se tornar automático e difícil de controlar
Você pega o celular “só por um minuto” e, quando percebe, já perdeu meia hora. A cena, cada vez mais comum no cotidiano, tem explicação científica e psicológica. Segundo o psicólogo Alfredo de Morais, o uso excessivo do celular está diretamente ligado a mecanismos que envolvem atenção, recompensa e ansiedade.
De acordo com o especialista, um dos principais fatores é o chamado “sequestro da atenção”, provocado por estímulos constantes e recompensas rápidas oferecidas pelas redes sociais e aplicativos.
“Quando a gente fala sobre celular, a gente tem que ver uma série de combinações de mecanismos psicológicos e neurocientíficos. O que mais pesa é esse ‘sequestro’ da nossa atenção”, explica.
Ele destaca que o cérebro passa a funcionar em um ciclo de expectativa por recompensa, impulsionado pela liberação de dopamina, neurotransmissor ligado ao prazer.
“O cérebro fica atento o tempo todo e, sendo atento, ele vai liberar dopamina na expectativa da recompensa. É como aquela necessidade de dar a notícia primeiro, de estar sempre por dentro”, afirma.
Outro ponto importante é o uso do celular como uma forma de fuga emocional. Em meio a pensamentos intrusivos ou preocupações, o ambiente digital surge como uma alternativa mais leve e imediata.
“Quando você foge dos seus enfrentamentos pessoais, você se refugia naquilo que é mais lúdico. O celular facilita isso. Você sai dos pensamentos intrusivos e busca uma gratificação rápida”, pontua.
Além disso, o medo de ficar por fora, conhecido como FOMO (fear of missing out), também reforça o comportamento.
“Existe o medo de estar afastado das novidades. A novidade traz uma compensação cerebral e mexe com a autoestima. É aquela sensação de ser o primeiro a saber, o centro das atenções”, explica Alfredo.
Com o tempo, o que começa como uma escolha consciente pode se transformar em um hábito automático. A repetição constante altera a forma como o cérebro responde aos estímulos, tornando o uso cada vez mais difícil de controlar.
O problema, segundo o psicólogo, é que esse ciclo pode gerar cansaço mental e até transtornos mais graves.
“Há um limite. Esse excesso causa um cansaço mental e uma busca incessante por novidades, seja em conversas ou nas redes sociais. É preciso controle do córtex pré-frontal para que isso não se torne algo negativo”, alerta.
Ele ainda reforça que, em casos mais intensos, o comportamento pode evoluir para quadros de ansiedade.
“Pode levar a um transtorno de ansiedade generalizada, exigindo acompanhamento com psicólogo ou psiquiatra”, destaca.
Para o especialista, o impacto do uso excessivo do celular já é uma realidade social e exige atenção.
“Todas as pessoas que estão envolvidas nessa pressão social de estar o tempo todo com a vida ‘sequestrada’ pelo celular precisam olhar para isso com urgência e, muitas vezes, buscar tratamento psicológico”, conclui.
*Com informações da repórter Isabel Bomfim