Muito além do São João, famílias da Queimadinha transformam a venda de amendoim em fonte de renda durante todo o ano e mantêm uma tradição que passa de mãe para filha
Na Queimadinha, em Feira de Santana, o amendoim não aparece apenas como um dos símbolos das festas juninas. Para muitas famílias do bairro, a venda do produto representa trabalho, sustento e uma tradição que atravessa gerações. O comércio, que costuma ganhar força durante o São João, continua durante os demais meses do ano e já levou vendedores para diferentes cidades em busca de festas e outros eventos.
Uma dessas histórias é a de Edilene Dionísia, que começou a vender amendoim ainda jovem, seguindo os passos da mãe. Aos 56 anos, ela mantém a atividade e conta que a família chegou a viajar para comercializar o produto antes de optar por permanecer no bairro.

“Eu comecei com uns 20, 25 anos. Minha mãe vendia também, mas ela vendia viajando. A gente saía para vender fora, ia para bingo, festa de dois dias, essas coisas”, relembra.
Durante anos, as viagens fizeram parte da rotina da família. A atividade, porém, acabou sendo afetada pelo aumento dos custos de transporte. Com o frete mais caro, Edilene decidiu concentrar as vendas na Queimadinha.
“Como o frete está muito difícil e muito caro, a gente resolveu ficar diretamente só aqui. Antes a gente viajava bastante para vender”, explica.
A experiência também mostra que a comercialização do amendoim não está necessariamente limitada às festas juninas. Para os vendedores tradicionais, existe mercado durante todo o calendário, seja em eventos comunitários, festas particulares ou encomendas.
A continuidade desse trabalho aparece na história de Valéria de França, filha de Edilene. Ela também trabalha com a venda de amendoim e destaca que a atividade se tornou uma fonte de renda permanente para a família.
“Minha mãe vende e eu vendo hoje em dia também. Vai fazendo gerações, de filha para mãe, e vai indo. Muita gente criou seus filhos e estudou através disso”, afirma.
Valéria explica que, embora o São João seja o período de maior movimento, as vendas não desaparecem completamente nos outros meses. A diferença está no volume de clientes e na quantidade de vendedores que ocupam as margens da avenida.
“No São João muita família vem vender para tirar uma renda extra. Depois que passa, a vendagem cai muito, mas ainda dá para tirar alguma coisa. É melhor do que ficar parada”, conta.
Segundo ela, muitas das pessoas que reforçam as vendas durante o período junino são moradoras da própria Queimadinha. Algumas aproveitam as férias do trabalho para comercializar o produto e complementar o orçamento.

Apesar da associação imediata entre o produto e os festejos juninos, Valéria afirma que existe demanda durante todo o ano. Ela mantém clientes que fazem encomendas para aniversários, festas particulares e eventos empresariais.
“Eu tenho muitos clientes de encomenda. A pessoa liga para dizer: ‘Tenho minha festa, meu aniversário’, e já pega meu número. Aí a gente vai entregar”, relata.
A diferença financeira entre os períodos, no entanto, é significativa. Fora da temporada junina, a renda é menor, mas ainda representa uma alternativa importante para quem depende exclusivamente da atividade.
“Hoje diminuiu, mas é melhor do que tirar de algum lugar sem ter para colocar”, diz Valéria.
Durante o São João, o movimento cresce consideravelmente. Segundo a vendedora, a procura aumenta porque o amendoim faz parte da tradição das festas e do consumo típico do período.
Para Valéria, o comércio do amendoim deixou de ser apenas uma atividade complementar e passou a representar uma escolha profissional para parte dos trabalhadores da comunidade.
“Eu vivo do amendoim. Não troco o amendoim por trabalho de carteira assinada”, afirma.
A fala revela a dimensão econômica que a atividade alcançou no bairro. Ao longo dos anos, o dinheiro obtido com a venda ajudou famílias a manter suas casas, criar filhos e financiar estudos.
Na Queimadinha, portanto, o amendoim também conta uma história de trabalho familiar. O produto vendido nas barracas representa o conhecimento passado entre gerações e uma forma de sobrevivência construída longe dos empregos formais.
Apesar da importância econômica, os vendedores enfrentam problemas estruturais. Valéria aponta a falta de um banheiro fixo como uma das principais dificuldades para quem permanece durante horas trabalhando nas margens da avenida José Falcão.
“No São João colocaram dois banheiros, mas depois levaram. Não ficou nenhum fixo”, reclama.
A localização das barracas também exige atenção com o trânsito. A comerciante lembra que já presenciou acidentes próximos ao ponto de venda e relata o susto provocado por uma colisão.
“Um dia desses um carro bateu com outro bem na minha frente. Eu vi a hora de o carro capotar. Pulei correndo, mas não aconteceu nada comigo”, conta.
Mesmo diante das dificuldades, a família continua apostando no comércio. Para Edilene e Valéria, vender amendoim representa mais do que uma atividade econômica: é uma herança familiar que continua sendo transmitida e adaptada às novas realidades.
Da antiga rotina de viagens para festas e bingos em outras cidades às vendas feitas atualmente na própria Queimadinha, a história do amendoim mostra como uma tradição pode se transformar sem perder suas raízes.
Mais do que um produto típico do São João, o amendoim é, para essas famílias, trabalho durante o ano inteiro, memória afetiva e uma atividade que atravessa gerações.