Manifestação cultural realizada há cerca de 60 anos reúne moradores das Baraúnas nas últimas horas do ano, mistura crítica social, memória coletiva e esperança por novos tempos
Há cerca de seis décadas, moradores das Baraúnas se reúnem nas últimas horas do dia 31 de dezembro para uma tradição que mistura irreverência, memória coletiva e esperança por tempos melhores: o tradicional Enterro do Ano Velho. A manifestação cultural, considerada uma das mais simbólicas do bairro, reúne a comunidade em um cortejo pelas ruas da localidade, conduzindo um caixão com um boneco, uma representação simbólica do “ano velho” ou de figuras e problemas que marcaram negativamente aquele período.

O evento funciona como um ritual popular de despedida. Enquanto o boneco é carregado pelas ruas em clima de festa e reflexão, a comunidade celebra a chegada do novo ano, enterrando simbolicamente dificuldades e renovando expectativas.
O organizador da tradição, Givaldo Pereira Abreu, o “Gil”, explicou que a manifestação começou com Dona Preta, moradora histórica do bairro e lembrada até hoje pelos moradores como uma das responsáveis por fortalecer a cultura local.

“O enterro do ano começou com Dona Preta, uma pessoa muito digna, muito conhecida aqui. Eu era pequenininho quando tudo começou. Depois que ela faleceu, eu vi que talvez ninguém fosse dar continuidade e resolvi assumir essa responsabilidade”, contou.
Segundo Gil, a preparação começa semanas antes do réveillon. O boneco, que fica dentro do caixão levado durante o cortejo, é confeccionado manualmente por ele mesmo.
“Eu faço o boneco aqui. Compro roupa, sapato, mando costurar, arrumo duas semanas antes pra no dia já estar tudo pronto. Aí no dia do enterro a gente organiza tudo, pega o caixão, coloca o boneco e sobe para fazer a cerimônia”, relatou.

Uma das características mais marcantes do Enterro do Ano Velho é a escolha do personagem simbolizado pelo boneco. A identidade só é revelada no próprio dia da festa e costuma representar algo ou alguém que marcou negativamente o ano.
“Pode ser político, vereador, alguém do bairro ou até alguma situação ruim que aconteceu. Já colocamos Covid, chikungunya”, lembrou Gil.
Ao final do cortejo, o boneco é queimado simbolicamente, representando o encerramento de um ciclo e a esperança de renovação.
“Pra mim o enterro leva embora tudo aquilo que foi ruim naquele ano. E entra outra vida, outro ar, outra regeneração. É uma renovação”, afirmou.
Apesar da grande mobilização popular, o evento não conta com apoio formal fixo e é sustentado, principalmente, pela própria comunidade. Gil contou que moradores contribuem mensalmente para garantir a realização da festa.
“Tem umas vinte pessoas certinhas que me ajudam todo mês com dez reais. A gente junta o dinheiro durante o ano pra pagar carro de som, comprar bebida, refrigerante e ajudar os músicos que participam”, explicou.
Segundo ele, o dinheiro arrecadado também acaba ajudando moradores em situação de vulnerabilidade.
“Já teve ano que sobrou dinheiro e ajudamos uma pessoa acamada comprando fralda geriátrica. Na época da Covid, quando não teve festa, usamos o dinheiro pra montar mini cestas básicas pra pessoas daqui que estavam precisando”, revelou.
Gil reforça que o principal desejo é garantir a continuidade da tradição para as futuras gerações.
“É uma cultura de quase sessenta anos. Não pode acabar. O povo abraça esse enterro, fica esperando chegar dezembro. Minha vontade é que isso passe pra outras pessoas também e continue”, destacou.
A importância do Enterro do Ano Velho ultrapassou os limites do bairro e também ganhou reconhecimento acadêmico e cultural. A festa foi tema do projeto de pesquisa “Sai da Frente Ano Velho, que o Ano Novo Quer Passar: Uma pesquisa histórico-social do Enterro do Ano Velho, no bairro Baraúnas, em Feira de Santana – BA”, contemplado pela Lei Aldir Blanc – Feira de Santana.
Como resultado do estudo, foi criada uma cartilha em formato de história em quadrinhos, com linguagem acessível, apresentando a tradição por meio dos personagens fictícios Baraunita e Sobradino, valorizando a memória da comunidade e aproximando as novas gerações da manifestação cultural.

A publicação também presta homenagem a Dona Preta, reconhecida como uma das figuras fundamentais para a manutenção da tradição ao longo das décadas.

*Com informações do repórter JP Miranda