Caso histórico nos EUA responsabiliza redes sociais por vício em adolescente
A decisão de um júri de Los Angeles, nos Estados Unidos, que condenou as gigantes da tecnologia Meta e Google a pagar milhões de dólares por danos ligados ao vício em redes sociais, repercutiu amplamente e levantou dúvidas entre usuários brasileiros sobre a possibilidade de indenizações semelhantes no país.
O caso foi considerado histórico. Uma jovem de 20 anos alegou ter desenvolvido dependência ainda na adolescência ao utilizar plataformas como Instagram e YouTube, apontando que os mecanismos dos aplicativos incentivam o uso contínuo. Segundo ela, o consumo excessivo agravou quadros de depressão e levou a pensamentos suicidas.
O júri entendeu que as empresas contribuíram para uma crise de saúde mental entre adolescentes. A decisão determinou o pagamento de cerca de US$ 4,2 milhões (R$ 22 milhões) pela Meta e US$ 1,8 milhão (R$ 9,4 milhões) pelo Google. O veredito pode abrir precedente para milhares de novos processos semelhantes nos Estados Unidos.
Além disso, o debate sobre a responsabilidade das plataformas digitais tem avançado no país, com estados aprovando leis que restringem o uso de redes sociais por crianças e exigem verificação de idade, tema que ainda enfrenta disputas judiciais.
Apesar da repercussão, o advogado especialista em direito digital Lucas Rios alerta que é preciso cautela ao comparar a realidade norte-americana com a brasileira.
Segundo ele, os sistemas jurídicos são distintos, especialmente no que diz respeito às indenizações.
“Essa notícia precisa de cuidado ao diferenciar o sistema estadunidense do brasileiro. Enquanto os Estados Unidos privilegiam menos leis e dão maior força ao juiz e ao júri, aqui no Brasil se privilegia mais a atuação do Legislativo e do magistrado”, explicou.
Dr. Lucas destaca que, nos Estados Unidos, as indenizações costumam ter caráter punitivo e educativo, com valores mais elevados justamente para inibir práticas das empresas.
“Lá se privilegia indenizações maiores para punir e educar as empresas, evitando que continuem perpetuando a conduta que foi condenada”, afirmou.
No Brasil, segundo o especialista, a lógica é diferente. O Judiciário busca evitar o chamado enriquecimento indevido, o que impacta diretamente nos valores fixados.
“Aqui se utiliza o entendimento de evitar o enriquecimento ilícito. Então as indenizações são menores, também para se adequar ao grande volume de processos existentes no país”, pontuou.
Outro fator relevante é o acesso à Justiça. Enquanto nos Estados Unidos há mais barreiras para abertura de processos, no Brasil o acesso é mais amplo, o que também contribui para decisões mais moderadas.
“No Brasil há facilidade de ingresso na Justiça, e isso faz com que os juízes moderem os valores das indenizações”, explicou.
Dr. Lucas ressalta que indenizações mais expressivas no Brasil geralmente estão ligadas a ações coletivas ou penalidades aplicadas por órgãos públicos.
“Essas indenizações maiores aqui no Brasil ocorrem geralmente por meio de ações coletivas ou multas administrativas de órgãos como a Autoridade de Proteção de Dados ou o PROCON”, disse.
Diante da repercussão, o especialista faz um alerta importante para evitar interpretações equivocadas por parte da população.
“É essencial que o ouvinte não acredite que essa tendência será aplicada aqui no Brasil. Não significa que alguém terá direito a uma indenização bilionária nas mesmas condições”, concluiu.
O caso norte-americano, no entanto, reforça um debate global cada vez mais urgente: o impacto das redes sociais na saúde mental, especialmente entre crianças e adolescentes, e o papel das grandes empresas de tecnologia nesse cenário.
*Com informações do repórter Robson Nascimento