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Sexo, silêncio e culpa: especialistas discutem o tabu do prazer feminino

Ginecologista e psicólogo analisam fatores históricos, culturais e religiosos que ainda dificultam o diálogo sobre a sexualidade da mulher

Por Rafa
sábado, 07 de fevereiro de 2026
Crédito: Shutterstock
Foto: Crédito: Shutterstock

Apesar dos avanços na discussão sobre sexualidade e saúde da mulher, o prazer feminino ainda é cercado por tabus, preconceitos e desinformação. O tema foi debatido em uma entrevista com a ginecologista Dra. Márcia Suely e o psicólogo e escritor Dr. Alfredo de Morais, que abordaram aspectos históricos, culturais, religiosos e psicológicos que ainda dificultam o diálogo aberto sobre o assunto.

Segundo Dr. Alfredo, a ideia de que existe uma “fórmula” para o prazer é equivocada e prejudicial. Ele explicou que cada mulher possui uma forma única de sentir prazer, o que exige diálogo, respeito e autoconhecimento.

“Cada corpo é diferente. Não existe regra, não existe mapa pronto. Se a mulher não disser como gosta, o parceiro vai ficar tateando. O prazer precisa de diálogo, não de adivinhação”, afirmou.

Durante a conversa, os especialistas destacaram que o tabu em torno do prazer feminino tem raízes históricas profundas. Dr. Alfredo lembrou que, por muitos anos, o orgasmo feminino foi descredibilizado inclusive pela ciência.

“Freud chegou a dizer que o orgasmo feminino era um desejo infantil, o que infantilizou e deslegitimou o prazer da mulher. A sexualidade feminina foi historicamente reprimida”, explicou.

A Dra. Márcia Suely reforçou que fatores religiosos também influenciam esse bloqueio, especialmente quando o sexo é tratado apenas como algo pecaminoso ou proibido.

“Muitas mulheres chegam ao consultório sem nunca terem sentido prazer. Foram educadas para acreditar que sexo era pecado, algo que não se falava. Isso gera medo, dor e, em alguns casos, até vaginismo”, destacou.

Ela ressaltou que a religião, por si só, não é o problema, mas sim interpretações distorcidas que reforçam a culpa e a repressão.

Outro ponto abordado foi o mito de que o prazer feminino está diretamente ligado à penetração. Dr. Alfredo explicou que a anatomia feminina mostra exatamente o contrário.

“O prazer da mulher não está na profundidade da penetração. O clitóris é o único órgão do corpo humano feito exclusivamente para o prazer e possui de oito a dez mil terminações nervosas. Muitas mulheres sequer sabem disso”, afirmou.

Ele criticou a influência da pornografia na formação de expectativas irreais sobre sexo.

“Filme pornô é fantasia. Não é manual de instrução. Cada mulher sente prazer de uma forma diferente”, reforçou.

Para os especialistas, o prazer começa muito antes do contato físico. A mente tem um papel central na vivência sexual saudável.

“O sexo começa na cabeça. Se a pessoa não se sente segura, respeitada ou desejada, o corpo não responde”, disse Dr. Alfredo.

Nesse contexto, a falta de diálogo é apontada como um dos principais fatores de frustração sexual em relacionamentos duradouros.

“Muitos casais se amam, mas não conversam sobre sexo. Acham que respeito é não falar. Isso gera anos de frustração”, destacou.

Ao responder uma das dúvidas mais comuns, Dr. Alfredo foi categórico ao afirmar que não existe mulher fria.

“O que existe é um comportamento ensinado. Muitas mulheres nunca foram estimuladas a se conhecer e entender seus limites. Prazer também se aprende”, afirmou.

A Dra. Márcia complementou ressaltando a importância do autoconhecimento e da busca por ajuda profissional quando necessário.

“A mulher precisa se autorizar a sentir prazer. Isso faz parte da saúde, do bem-estar e da qualidade de vida”, concluiu.

O debate também girou em torno do livro de Dr. Alfredo de Morais, que aborda sexualidade, prazer e autoconhecimento com uma linguagem acessível tanto para mulheres quanto para homens.

“É um livro para todos. Mulheres, homens, público LGBT. Quem quer entender melhor o corpo, o prazer e o respeito precisa se permitir essa leitura”, afirmou o autor.

Ao final da entrevista, os especialistas reforçaram que falar sobre prazer feminino é um passo essencial para combater a violência simbólica, emocional e física contra a mulher.

“Prazer não é luxo, é saúde”, resumiu a Dra. Márcia Suely.

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