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Falta de planejamento e aumento das temperaturas colocam arborização urbana no centro do debate em Feira de Santana

Arquiteto Ed Vasco defende maior protagonismo do poder público e alerta para os impactos das mudanças climáticas nas cidades

Victória SilvaRedação: Victória Silva
domingo, 19 de julho de 2026 às 12:00
Imagem de Falta de planejamento e aumento das temperaturas colocam arborização urbana no centro do debate em Feira de Santana
Foto: Jorge Magalhães/Arquivo

A arborização urbana voltou a ganhar destaque no debate sobre o futuro das cidades e os impactos das mudanças climáticas. Em Feira de Santana, onde as altas temperaturas fazem parte da rotina durante boa parte do ano, o arquiteto e urbanista Ed Vasco defendeu a criação de políticas públicas específicas para o plantio e a preservação de árvores nos espaços urbanos.

Durante entrevista ao quadro Home News, o especialista avaliou que Feira de Santana ainda não possui um planejamento adequado para a arborização das vias públicas e dos espaços urbanos. Para Ed Vasco, o problema é resultado de uma falta de política pública que atinge municípios de diferentes portes em todo o país.

“Infelizmente, não é uma política pública dos nossos gestores. Dos prefeitos, das câmaras de vereadores, nem do secretariado, a política pública de arborização para as grandes, pequenas ou médias cidades brasileiras”, afirmou.

Segundo o arquiteto, a ausência de planejamento também contribuiu para a criação de um preconceito da população em relação às árvores. Entre as principais reclamações estão os danos em calçadas, muros e a interferência na rede elétrica. No entanto, Ed Vasco destacou que esses problemas podem ser evitados com a escolha adequada das espécies e a definição correta dos locais de plantio.

“Para cada calçada, para cada ambiente, para cada via, há uma especificação de um tipo de arborização. Então isso cabe muito ao poder público. Isso não é uma decisão do cidadão”, explicou.

Ao falar sobre possíveis soluções, Ed Vasco citou cidades da Colômbia como referências para o planejamento urbano e a arborização. De acordo com o arquiteto, Medellín conseguiu transformar o perfil da cidade a partir de um amplo programa de plantio de árvores.

“Só Medellín plantou 880 mil árvores em dez anos. Em uma década, eles mudaram o perfil de Medellín. Teve uma redução de 12 para 3 graus, além de aumentar a biodiversidade, diminuir a sensação térmica e tornar as cidades muito mais agradáveis”, destacou.

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O especialista defendeu que os municípios brasileiros observem experiências bem-sucedidas na América Latina e adotem políticas de longo prazo. Para ele, o tema não pode ficar restrito ao discurso político ou às discussões ambientais pontuais.

“A questão da arborização é menos do contribuinte e mais do poder público. Eu sempre recomendo aos gestores públicos terem um case de sucesso. O case de sucesso aqui na América Latina é a Colômbia, Bogotá e Medellín”, afirmou.

Ed Vasco também chamou atenção para a importância da escolha das espécies utilizadas na arborização urbana. O arquiteto defendeu o uso de árvores nativas, destacando os benefícios para a biodiversidade e a redução da necessidade de manutenção.

“A gente sempre recomenda, como arquitetos e paisagistas, usarmos árvores nativas. A maior biodiversidade do mundo está aqui no Brasil”, ressaltou.

Ele explicou ainda que a implantação inadequada de árvores pode gerar problemas, especialmente em cidades onde a fiação elétrica e de internet ainda não é subterrânea.

“Quando a árvore é mal implantada, a arborização é mal implantada, ela pode causar danos muito sérios. É sempre a especificação das árvores que é muito, muito importante”, afirmou.

Questionado sobre a responsabilidade dos municípios, Ed Vasco foi direto ao defender que as prefeituras assumam o protagonismo na definição das políticas de arborização.

“Cabe a todos os municípios brasileiros assumir esse protagonismo”, declarou.

O arquiteto citou como exemplo a necessidade de definir espécies adequadas para diferentes áreas de Feira de Santana, como a Avenida Getúlio Vargas e bairros com características distintas.

“Quais são as árvores ideais para a Avenida Getúlio Vargas? Quais são as árvores ideais para um bairro como o Sim? Para a Queimadinha? Para que tipo de calçada essa árvore vai estar?”, questionou.

Para Ed Vasco, a população também precisa ampliar a cobrança por ações concretas diante do avanço das mudanças climáticas.

“A sociedade precisa manter essa chama acesa e começar a cobrar ações, porque a temperatura está muito quente”, alertou.

O arquiteto ainda demonstrou preocupação com o futuro das cidades caso medidas não sejam adotadas de forma imediata.

“Se a gente não começar agora a reverter isso, daqui a 20, 30 anos, a situação vai ficar insustentável”, afirmou.

Ed Vasco criticou o que classificou como uma “miopia” do Governo Federal em relação à arborização das cidades. Segundo ele, apesar de mais de 80% da população brasileira viver em áreas urbanas, ainda falta uma política nacional específica para o tema.

“Como é que o Ministério do Meio Ambiente não tem uma política de arborização de cidades? Para você ver o tipo de miopia que nós temos com a arborização urbana”, criticou.

Para o arquiteto, uma política nacional poderia estimular a união entre Governo Federal, estados e municípios para a criação de projetos permanentes de arborização e melhoria da qualidade de vida da população.

Ed Vasco reforçou que a árvore deve ser vista como uma aliada, mas alertou que o plantio precisa ser feito de forma planejada.

“Não recomendo pegar qualquer tipo de árvore para qualquer calçada. Uma árvore de grande porte não é para estar numa via estreita ou com o passeio muito estreito”, orientou.

O especialista recomendou que moradores procurem a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e outros órgãos públicos antes de escolher a espécie e o local do plantio.

“A árvore é uma aliada não só para a questão climática, mas para o bem-estar do ser humano”, concluiu.

Ed Vasco explicou que as palmeiras utilizadas em projetos paisagísticos têm função predominantemente decorativa e não substituem os benefícios ambientais proporcionados pelas árvores.

“Palmeira no paisagismo é tida como algo decorativo. Para se fazer uma ambientação urbana e ter benefícios urbanos, realmente tem que ser árvore”, explicou.

O arquiteto voltou a defender que a arborização e as calçadas sejam tratadas como responsabilidades que exigem planejamento público.

“Enquanto os municípios brasileiros não tiverem uma diretriz de arborização ou até mesmo de calçadas, a gente vai ficar sem nenhum tipo de projeto”, concluiu.

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