Cirurgias refrativas, implantes de lentes e procedimentos para presbiopia ampliam as possibilidades de correção visual; especialistas alertam que avaliação individual é indispensável
A busca por mais liberdade no dia a dia tem levado cada vez mais pessoas a procurar alternativas para reduzir ou eliminar a dependência dos óculos. O tema foi discutido no quadro Neuroreabilitação em Pauta, durante o programa Cidade em Pauta, com a participação do fisioterapeuta Dr. Vinicius Oliveira, da Reabserv, e do médico oftalmologista Dr. Daniel Braga.
Durante a entrevista, os especialistas explicaram que situações aparentemente simples, como esquecer os óculos em casa, não conseguir ler um cardápio ou enfrentar dificuldades para praticar esportes, podem representar limitações que interferem diretamente na rotina e na qualidade de vida.
“Quem nunca saiu de casa e teve que retornar porque esqueceu o óculos? Ou quem precisa levantar da cama e, antes de começar o dia, pegar o óculos na cabeceira? São pequenos detalhes em que a gente se vê preso e muitas vezes não percebe”, explicou Dr. Daniel.
Segundo o oftalmologista, a chamada liberdade visual está relacionada justamente à possibilidade de realizar atividades cotidianas sem depender constantemente de óculos ou lentes de contato. A limitação visual também pode influenciar escolhas profissionais, desempenho e até a prática de atividades físicas.

De acordo com Dr. Daniel, atualmente existem diferentes procedimentos capazes de corrigir problemas refrativos, como miopia, hipermetropia, astigmatismo e presbiopia. A indicação depende das características de cada paciente e de uma avaliação oftalmológica completa.
Entre as alternativas, o especialista destaca a cirurgia refrativa a laser como uma das principais opções quando o paciente apresenta condições adequadas para o procedimento.
“A cirurgia refrativa é toda cirurgia que visa corrigir o grau. A primeira técnica é sempre o laser, porque é minimamente invasiva, mais rápida e indolor”, afirmou.
O médico também explicou que existem outras possibilidades para pacientes que não podem realizar o procedimento a laser, como o implante de lentes intraoculares. A própria cirurgia de catarata também pode ser planejada com o objetivo de corrigir o grau, dependendo do caso.
“Temos um leque de opções cirúrgicas. O cirurgião habilitado é quem vai dar essa orientação”, destacou.
Outro ponto abordado durante o programa foi a chamada vista cansada, conhecida tecnicamente como presbiopia. A condição costuma surgir a partir dos 40 ou 45 anos e provoca dificuldade para enxergar de perto, levando muitas pessoas a afastarem objetos ou estenderem os braços para conseguir focar.
Dr. Daniel explicou que novas tecnologias também permitem tratar esse tipo de alteração visual.
“A presbiopia é a dificuldade de enxergar de perto que a maioria das pessoas tem geralmente após os 40, 45 anos. O grau vai aumentando porque o cristalino vai enfraquecendo cada vez mais”, explicou.
Segundo o especialista, procedimentos a laser podem ser indicados para determinados pacientes, mas a escolha depende de exames e de uma avaliação individualizada.
A participação do fisioterapeuta Vinicius Oliveira trouxe outra perspectiva para o debate: a relação entre a visão, o equilíbrio e a reabilitação neurológica.
De acordo com ele, o sistema visual trabalha em conjunto com informações provenientes do sistema vestibular e da propriocepção, percepção do próprio corpo no espaço, para permitir que o cérebro organize o equilíbrio.
“A gente tem alguns pilares do equilíbrio. A propriocepção é a sensibilidade que vem do corpo, dos músculos, das articulações e dos tendões. Isso é cruzado com o sistema vestibular e com a informação visual”, explicou.
Para Vinicius, uma melhora na capacidade visual pode repercutir em outras áreas da vida, principalmente entre idosos e pessoas com limitações de mobilidade.
“Quando um paciente consegue retirar o óculos e melhora do ponto de vista oftalmológico, ele não tem impacto somente naquilo que está vendo. Esse retorno de uma boa visão também pode repercutir em outras partes do cotidiano”, afirmou.
O fisioterapeuta ressaltou ainda que uma boa visão pode ajudar o paciente a realizar atividades como caminhar, utilizar um elevador e se deslocar com mais segurança, contribuindo para a prevenção de quedas.
Os especialistas também chamaram atenção para os impactos que uma deficiência visual pode causar em pessoas idosas. Segundo Vinicius, dificuldades de visão associadas a problemas de mobilidade podem aumentar os riscos durante atividades simples dentro e fora de casa.
“Imagina o idoso que já tem dificuldade de locomoção e ainda não está enxergando bem? O idoso tem que enxergar bem”, destacou.
O oftalmologista acrescentou que a visão possui papel fundamental na interação do ser humano com o ambiente e até na percepção de outros estímulos.
Durante a entrevista, Dr. Daniel também alertou para o aumento da incidência de miopia entre crianças e adolescentes e relacionou a preocupação ao uso excessivo de telas.
“A gente tem uma alta incidência de miopia nas crianças, e essa incidência vem aumentando. Os pais hoje devem tomar muito cuidado com o abuso de celular”, alertou.
O especialista explicou que o desenvolvimento da miopia está relacionado a alterações no sistema visual e reforçou a importância do acompanhamento oftalmológico desde a infância.
Outro assunto abordado foi o receio que muitos pacientes têm de realizar procedimentos oftalmológicos. Para Daniel Braga, a informação é fundamental para reduzir a ansiedade e esclarecer dúvidas.
“O medo deve ser tratado com orientação. Muitas vezes, ele existe pela falta de informação”, afirmou.
Segundo o médico, determinadas técnicas são realizadas com anestesia em colírio e podem permitir uma recuperação visual rápida, mas o tempo de recuperação varia conforme o procedimento realizado.
Ele explicou que o processo pode ser dividido em três etapas: a resolução do problema, o período de cicatrização e a adaptação do cérebro à nova condição visual.
“O cérebro antes estava acostumado a enxergar tudo embaçado. Agora ele está sendo apresentado a uma visão nítida. Então existe um período de readaptação”, explicou.
Ao responder a um ouvinte que relatou alterações na visão, dores e histórico de problemas na tireoide, Dr. Daniel reforçou que sintomas visuais precisam ser investigados individualmente e que não é possível indicar uma conduta sem avaliação médica.
“O principal é você passar por um bom oftalmologista. Tudo isso precisa de uma boa avaliação”, orientou.
Para quem deseja deixar de usar óculos, o primeiro passo também deve ser uma consulta especializada. O oftalmologista explicou que exames como avaliação da córnea e outros exames complementares ajudam a determinar se o paciente está apto para uma cirurgia.
“Não existe milagre. Na medicina, tudo tem que ser feito com bastante orientação, parcimônia e paciência. Cada caso é um caso”, afirmou.
A mensagem final dos especialistas foi de que a tecnologia ampliou as possibilidades de tratamento, mas a indicação de qualquer procedimento deve ser feita de forma individualizada, após avaliação médica e exames adequados.
“Um dos intuitos desse quadro é justamente levar à comunidade uma boa informação, porque, com informação, as pessoas podem tomar decisões de saúde, seja de prevenção ou de reabilitação”, concluiu Vinicius.