Levantamento da Unifesp aponta que 55,2% dos jovens entre 14 e 17 anos estão na zona de risco ou já apresentam transtorno relacionado ao vício em apostas
Mais de 1 milhão de adolescentes brasileiros entre 14 e 17 anos já apostaram pelo menos uma vez no último ano. O dado é do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que também aponta que 55,2% desses jovens estão na zona de risco ou já apresentam transtorno relacionado ao vício em apostas.
Diante do crescimento desse comportamento entre adolescentes, a psicóloga Áquila Thalita destaca que pais e escolas têm papel fundamental na identificação dos primeiros sinais. Segundo ela, mudanças na rotina e no comportamento podem indicar uma relação problemática com as apostas.
“Os pais e a escola têm papel fundamental nessa rede de apoio para identificar os primeiros sinais, principalmente por conta de comportamentos que podem desviar da rotina do adolescente”, explicou.
A psicóloga também chama atenção para adolescentes mais introspectivos, com sintomas de ansiedade ou que passam a apresentar mudanças emocionais. Para ela, a identificação não deve ser usada apenas para apontar o problema, mas para criar espaços de acolhimento e diálogo.
“A ideia de identificar não é somente apontar, mas principalmente tornar esses espaços, principalmente a escola, um meio em que se possa circular a palavra em relação a esse assunto, esclarecer essas situações e acolher”, afirmou.
Áquila explica que o vício em apostas esportivas pode ser classificado como uma dependência comportamental. A condição, segundo ela, apresenta semelhanças com outros tipos de dependência, como o uso de álcool e drogas.
“A ciência tem nomeado o vício em apostas esportivas como uma dependência comportamental. Ela é muito semelhante a outros tipos de dependência, como a própria dependência química”, destacou.
O problema também pode ser reconhecido como ludopatia. De acordo com a psicóloga, o tratamento deve ser baseado principalmente no acompanhamento psicológico. Em casos mais graves, a utilização de medicamentos pode ser associada à psicoterapia.
“O tratamento psicológico é, sobretudo, o padrão ouro. Nos casos mais graves, pode haver a utilização de medicação associada à psicoterapia”, explicou.
Entre os fatores que podem tornar os adolescentes mais vulneráveis às apostas está a busca por emoções intensas e recompensas imediatas. Áquila lembra que a adolescência é uma fase em que o controle dos impulsos e a avaliação de riscos ainda estão em desenvolvimento.
“Existe a busca por uma emoção forte, por uma recompensa curta e imediata. Também há, nessa fase, uma dificuldade de controlar os impulsos e uma imaturidade para avaliar determinados riscos, principalmente os de longo prazo”, disse.
A exposição constante às redes sociais e a propagandas protagonizadas por artistas, jogadores e influenciadores também pode funcionar como um gatilho para o comportamento de risco.
Além disso, adolescentes que enfrentam problemas de relacionamento, isolamento social ou sintomas de ansiedade e depressão podem recorrer às apostas como uma espécie de fuga.
“A aposta pode ser utilizada como uma válvula de escape e acaba agravando o próprio quadro preexistente. A predisposição acaba piorando ainda mais a situação”, alertou.
Os prejuízos provocados pelo vício em apostas podem atingir não apenas o adolescente, mas também toda a família. Entre os impactos estão o aumento da ansiedade, o estresse e a frustração causados pelas perdas.
A psicóloga ressalta que, na prática, perder em apostas é mais provável do que ganhar, o que pode transformar o prejuízo em um ciclo contínuo.
“A ansiedade aumenta porque o adolescente fica naquela expectativa de ganhar. Quando perde, vem o estresse e a decepção. A perda acaba se tornando algo crônico”, afirmou.
Segundo Áquila, sintomas depressivos também podem surgir em razão da culpa, da vergonha e da sensação de desamparo após grandes prejuízos financeiros.
Outro sinal frequente é a irritabilidade, acompanhada de oscilações de humor. A situação pode se tornar ainda mais evidente quando o adolescente é impedido de apostar.
“Quando você faz uma intervenção e impede aquele sujeito de jogar, pode aparecer um comportamento mais irritadiço e, às vezes, até agressivo”, explicou.
A psicóloga também chama atenção para os impactos na autoestima. Para alguns adolescentes, a aposta passa a representar uma forma de obter rapidamente algo que não conseguem conquistar por outros meios.
“Às vezes, a pessoa tem uma história de fracasso pessoal e acaba sobrepondo isso nas apostas, buscando ganhar algo que não consegue ganhar por outra medida”, analisou.
Áquila Thalita reforça que muitos jovens não conseguem interromper o ciclo sozinhos. Por isso, a identificação precoce, o diálogo entre família e escola e o acompanhamento psicológico são fundamentais para reduzir os impactos do vício em apostas na saúde mental e no desenvolvimento dos adolescentes.