Psicóloga Olivia Magalhães e o médico Itamar Antonini esclarecem equívocos sobre o transtorno
O Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) ainda é cercado por mitos que atrasam o diagnóstico e impedem que crianças, adolescentes e adultos recebam o tratamento adequado. Durante o quadro "Saúde Mental em Pauta", a psicóloga e neuropsicóloga Olivia Magalhães e o médico Itamar Antonini, especialista em psiquiatria, esclareceram as principais dúvidas sobre o transtorno e defenderam o acesso à informação como ferramenta de prevenção.
Itamar destacou que um dos maiores equívocos é acreditar que toda pessoa com TDAH é hiperativa.
"Tem muitas pessoas que pensam que o TDAH é só hiperativo ou agitado. Mas existem pessoas que são mais introspectivas, ficam em devaneios, são reservadas, mas a mente está a um milhão por hora."
O médico explicou que o transtorno possui três apresentações: predominantemente desatenta, predominantemente hiperativa e impulsiva ou combinada. Segundo ele, limitar o diagnóstico apenas à hiperatividade faz com que muitos casos passem despercebidos.
Outro mito abordado foi a ideia de que o tratamento se resume ao uso de medicamentos. Para Itamar, essa expectativa costuma frustrar muitos pacientes.
"A medicação é só uma parte do tratamento. Se você não muda sua rotina, não organiza o ambiente e não direciona seu foco, ela sozinha não resolve."
Ele ressaltou que o tratamento é multidisciplinar e envolve terapia, organização da rotina, prática de atividade física, sono adequado e acompanhamento médico.
Durante a conversa, os especialistas também explicaram que o transtorno vai muito além da dificuldade de concentração.
Segundo Itamar, pessoas com TDAH conseguem se concentrar, mas apresentam dificuldade em filtrar estímulos externos, o que compromete o foco nas atividades importantes.
"O problema não é apenas concentrar. A concentração existe, mas ela é periférica. A pessoa acaba absorvendo vários estímulos ao mesmo tempo."
Olivia Magalhães explicou que sintomas como distração, ansiedade e excesso de telas podem ser semelhantes ao TDAH, mas o diagnóstico exige critérios específicos.
Entre eles estão a presença de prejuízo funcional, sintomas em diferentes ambientes e sinais que surgiram ainda na infância.
"Pelo DSM-5, os sintomas precisam ter se manifestado antes dos 12 anos de idade para que o diagnóstico de TDAH seja considerado."
Ela chamou atenção ainda para um fenômeno cada vez mais frequente nos consultórios: pessoas que acreditam ter o transtorno apenas por se identificarem com conteúdos das redes sociais.
"Às vezes falta psicoeducação, acompanhamento e direcionamento. Nem toda dificuldade de atenção significa um transtorno."
Para os especialistas, o crescimento no número de diagnósticos está relacionado principalmente ao maior acesso à informação e à redução do preconceito em relação à saúde mental.
Itamar, que também convive com o transtorno, contou que durante sua infância o assunto praticamente não era discutido.
"Na minha época ninguém falava de TDAH. Hoje as pessoas têm acesso à informação pela rádio, televisão e redes sociais, conseguem se identificar e procuram ajuda."
Olivia acrescentou que falar sobre saúde mental também ajuda a diminuir o estigma em torno do atendimento psicológico e psiquiátrico.
Itamar reforçou que buscar avaliação especializada faz diferença na qualidade de vida dos pacientes.
Segundo ele, estudos mostram que pessoas com TDAH tratado apresentam menor risco de acidentes, uso de drogas e comportamentos impulsivos.
"O tratamento do TDAH é um dos que têm melhor resposta na psiquiatria. Em muitos casos, no primeiro mês já existe uma melhora de 70% a 80%."
O médico também compartilhou sua experiência pessoal.
"Eu mesmo sou um exemplo. Antes da medicação eu era uma pessoa, depois do tratamento sou outra. Vale a pena vencer esse bloqueio e procurar ajuda."
Olivia reforçou que o tratamento precoce é ainda mais importante durante a infância, quando é possível reduzir prejuízos acadêmicos, emocionais e sociais ao longo do desenvolvimento.
"Quando a criança é tratada cedo, ela consegue desenvolver estratégias e evitar que as dificuldades acompanhem a vida adulta."