Psicólogo explica que visualizar os gastos de forma concreta pode favorecer o autocontrole, mas destaca que a disciplina financeira é o principal fator para manter as contas em dia.
Com o avanço dos pagamentos por PIX, cartões por aproximação e carteiras digitais, usar dinheiro em espécie tornou-se um hábito cada vez menos frequente. Apesar disso, especialistas em comportamento humano destacam que transformar o ato de gastar em uma experiência mais concreta pode favorecer uma maior consciência financeira e ajudar no controle do orçamento.
O tema ganhou destaque após reportagem do portal argentino Todo Noticias (TN), que reuniu estudos da psicologia e da economia comportamental indicando que pessoas que utilizam dinheiro físico costumam perceber melhor os próprios gastos, justamente porque sentem de forma mais evidente a saída do dinheiro da carteira.
O psicólogo e especialista em comportamento Alfredo de Moraes explica que a principal diferença entre o dinheiro físico e os meios digitais está na forma como o cérebro percebe a perda financeira.
"Pegar na cédula dá mais aquele aporte de consciência financeira. O dinheiro digital pode dar uma sensação emocional de que aquele recurso é fictício, que ele volta. Quando você pega no objeto, no que é concreto, passa a ter uma noção maior da perda desse dinheiro."
Segundo o especialista, o pagamento eletrônico acontece de forma muito rápida, o que pode fazer com que muitas pessoas sequer tenham clareza do quanto gastaram ao longo do dia.
"Quando você faz um PIX ou uma transferência bancária, se não tiver o hábito de anotar, pode acabar esquecendo daquele gasto. Minha sugestão é justamente registrar cada movimentação financeira para ter um controle maior."
Apesar das pesquisas apontarem que o dinheiro em espécie pode tornar os gastos mais conscientes, Alfredo ressalta que não há evidências científicas de que pessoas que utilizam cédulas sejam, automaticamente, mais responsáveis com as finanças.
"Não há dados científicos que comprovem que usar dinheiro em espécie deixa a pessoa mais organizada financeiramente. O que faz diferença é a disciplina. Quem é disciplinado contabiliza seus gastos, seja no computador, no celular, no bloco de notas ou em um caderno."
Ele explica que o cérebro humano funciona por mecanismos de recompensa e que os meios de pagamento digitais podem facilitar compras impulsivas, principalmente quando associados ao crédito.
"Nós trabalhamos o tempo todo com recompensa. A compra dá uma sensação de vitória, principalmente no cartão de crédito. Você sente que tem poder de compra, mas depois vai precisar pagar essa conta."
O psicólogo recomenda que toda despesa seja registrada, independentemente da forma de pagamento. Segundo ele, visualizar os gastos ajuda a transformar números abstratos em uma realidade concreta.
"Quando você coloca aquilo que gasta em concretude, fica mais fácil visualizar. Quando faz a contabilidade no fim do mês, sabe exatamente quanto tem e quanto gastou. Isso ajuda a evitar grandes bobagens financeiras."
Alfredo alerta ainda para o risco de confundir limite de crédito com dinheiro disponível.
"Muitas vezes a pessoa olha um limite de cinco, dez ou vinte mil reais e acredita que aquele dinheiro é dela. Não é. É um recurso emprestado pelo banco. Quando você coloca tudo no papel ou no bloco de notas, passa a enxergar essa realidade com muito mais clareza."
A avaliação do especialista dialoga com pesquisas da economia comportamental. O conceito conhecido como "dor de pagar", desenvolvido pelos pesquisadores Drazen Prelec e George Loewenstein, demonstra que desembolsar dinheiro em espécie provoca uma percepção psicológica maior da perda, funcionando como uma barreira natural contra compras por impulso.
Os estudos também se aproximam das pesquisas do psicólogo e vencedor do Nobel de Economia Daniel Kahneman, que demonstram como emoções e vieses cognitivos influenciam diretamente as decisões financeiras.
Embora o dinheiro físico possa favorecer uma percepção maior dos gastos, especialistas ressaltam que a chave para uma vida financeira saudável continua sendo o planejamento. Registrar despesas, acompanhar o orçamento e conhecer os próprios limites permanecem como as principais estratégias para evitar o endividamento, independentemente da forma de pagamento utilizada.