Especialista destaca que, apesar da legislação garantir acessibilidade em Libras, pessoas surdas ainda enfrentam dificuldades na educação, saúde, mercado de trabalho e até dentro da própria família.
A dificuldade de comunicação enfrentada pela população surda vai muito além da ausência de intérpretes. Ela afeta o acesso à educação, aos serviços de saúde, ao mercado de trabalho e até mesmo as relações familiares, produzindo impactos significativos na saúde mental. O tema foi debatido durante entrevista no programa De Olho na Cidade com a psicóloga bilíngue em Libras, Shirley Marques, que atua há mais de uma década junto à comunidade surda.
Segundo a especialista, sua atuação nasceu da convivência direta com esse público. Antes mesmo de exercer a psicologia, ela trabalhou como intérprete de Libras e, nesse período, percebeu a necessidade de oferecer atendimento psicológico acessível.
"Depois da minha formação como psicóloga, em 2009, comecei atuando como intérprete de Libras. Com esse contato com os surdos, compreendi as necessidades deles e decidi me especializar como psicóloga bilíngue para atender as demandas da comunidade surda", explicou.
Shirley destacou que, embora exista uma legislação específica assegurando igualdade de acesso, a realidade ainda está distante do previsto em lei.
"A gente tem uma lei que garante igualdade a todos, mas essa igualdade não é efetivada para as pessoas surdas. Elas ainda enfrentam barreiras de acesso e permanência nos espaços", afirmou.
Como exemplo, ela relatou o caso de uma mãe que procurou uma escola particular para matricular a filha surda. Segundo a psicóloga, a instituição recusou a matrícula após tomar conhecimento da deficiência da criança.
"Quando a escola soube que a menina era surda, negou a matrícula. Hoje ela estuda em uma escola pública, onde conta com intérprete de Libras, mas a família ficou profundamente abalada por ter esse direito negado", contou.
A psicóloga lembrou que a Lei nº 10.436, de 2002, reconhece oficialmente a Libras como língua da comunidade surda, enquanto o Decreto nº 5.626, de 2005, regulamenta o acesso da pessoa surda aos serviços públicos e privados por meio da Língua Brasileira de Sinais.
Mesmo após mais de duas décadas da regulamentação da legislação, Shirley afirma que a população surda continua encontrando dificuldades para acessar serviços básicos.
"Ainda vemos pessoas surdas sem acesso ao mercado de trabalho e sem profissionais da saúde capacitados em Libras. Aqui em Feira de Santana existem poucos psicólogos bilíngues, e praticamente não encontramos esse atendimento na rede pública", observou.
Ela também relatou uma situação vivenciada recentemente ao tentar obter informações sobre vagas de emprego para uma amiga surda.
"A atendente me disse que muitas empresas reduziram a contratação de pessoas com deficiência e que algumas preferem pagar multas a cumprir a legislação. Isso mostra que ainda existe negligência em relação a um direito garantido pela Constituição", criticou.
Segundo Shirley, uma das consequências mais preocupantes da falta de acessibilidade é o impacto direto sobre a saúde mental.
"Tenho pacientes que desenvolveram transtorno de ansiedade generalizada porque não conseguem se comunicar nem dentro da própria casa. Outros apresentam transtorno de estresse pós-traumático provocado pelo acúmulo de frustrações decorrentes da falta de comunicação", revelou.
Ela explica que muitos surdos vivem em famílias ouvintes que não dominam Libras, dificultando até mesmo conversas simples do cotidiano.
"A pessoa surda quer apenas se expressar, ser compreendida e participar das relações familiares. Quando isso não acontece, surgem sentimentos de isolamento, raiva, impulsividade e sofrimento emocional", destacou.
Além da ausência de acessibilidade, a psicóloga aponta o preconceito como outro fator responsável pelo adoecimento emocional da população surda.
Segundo ela, muitas pessoas ainda enxergam o surdo sob uma perspectiva incapacitante.
"Infelizmente, por viver em uma sociedade majoritariamente ouvinte, o surdo enfrenta preconceitos e acaba internalizando uma visão de desvalorização. Tenho pacientes que dizem: 'o surdo está sempre em desvantagem; o ouvinte sempre tem vantagens'. Essa percepção impacta diretamente sua autoestima e saúde mental", afirmou.
Questionada sobre o avanço da inteligência artificial na tradução de Libras, Shirley considera que as novas tecnologias representam um importante apoio, mas ainda apresentam limitações.
"A Libras possui metáforas, expressões e características próprias. Muitas ferramentas de inteligência artificial ainda não conseguem interpretar corretamente esses aspectos. Elas ajudam, mas não substituem a atuação humana do intérprete", explicou.
Ela citou como exemplo um aplicativo premiado recentemente, desenvolvido para converter Libras em legendas em português. Segundo a psicóloga, testes realizados por profissionais da área demonstraram que a tradução ainda apresenta inconsistências.
Como alternativa para reduzir as barreiras de comunicação, Shirley destacou a plataforma ICOM, que oferece interpretação remota em Libras durante atendimentos médicos.
"O intérprete participa virtualmente da consulta, fazendo a mediação entre profissional de saúde e paciente surdo. É uma ferramenta importante que pode ser adotada por serviços públicos e privados", explicou.
A psicóloga criou o projeto Conexão Surda, iniciativa voltada tanto para pessoas surdas quanto para ouvintes interessados em aprender Libras e compreender melhor a acessibilidade.
"O projeto terá encontros mensais para desenvolvimento pessoal, educação emocional e fortalecimento da comunidade surda. Também ofereceremos formação para ouvintes, familiares e profissionais que desejam aprender Libras e ampliar o olhar sobre inclusão", informou.
Além dos encontros presenciais, Shirley também realiza atendimento psicológico presencial e online para pacientes de diversas regiões do país.
Ela reforçou que promover acessibilidade significa garantir direitos fundamentais.
"A comunicação é um direito básico. Quando ela não acontece, toda a vida da pessoa é afetada. Precisamos construir uma sociedade mais acessível, inclusiva e preparada para acolher a comunidade surda", concluiu.
Conexão Surda é lançado em Feira de Santana e fortalece o protagonismo da comunidade Surda