10/08/2026
--
De Olho na Cidade
InícioSaúde
6 min de leitura

Psiquiatra explica como identificar os primeiros sinais do vício em apostas online

Especialista alerta que a dependência em bets pode causar ansiedade, depressão, endividamento e perda de patrimônio

Victória SilvaRedação: Victória Silva
segunda-feira, 10 de agosto de 2026 às 06:16
Imagem de Psiquiatra explica como identificar os primeiros sinais do vício em apostas online

O crescimento das apostas esportivas online tem provocado um aumento significativo no número de pessoas que desenvolvem dependência em jogos. O alerta é do psiquiatra Dr. Raphael Silva, que participou do programa Jornal do Meio Dia para falar sobre os impactos psicológicos do vício em bets e afirmou que o problema já se tornou uma realidade frequente nos consultórios.

Segundo o especialista, a popularização das plataformas de apostas e o fácil acesso por meio dos celulares fizeram crescer rapidamente os casos de dependência, com consequências que vão desde o endividamento até a perda de patrimônio e o comprometimento da saúde mental.

"É uma problemática gigante que a gente vem passando no consultório. Eu já recebo pacientes que perderam casa, automóvel e pacientes que perderam mais de um milhão de reais com apostas", relatou.

Photo 2026 07 28 20 44 30

Embora atenda pessoas de diversas regiões por meio da telemedicina, Dr. Raphael afirma que os prejuízos financeiros e emocionais se repetem em praticamente todos os casos.

O psiquiatra explica que o jogo deixa de ser apenas entretenimento quando começa a provocar prejuízos concretos na vida da pessoa.

"Assim como acontece com álcool, cocaína ou qualquer outro vício, o comportamento passa a ser problemático quando começa a gerar prejuízo. A pessoa deixa de trabalhar, compromete as finanças, pede dinheiro emprestado e se endivida para continuar jogando", explicou.

Segundo ele, o principal critério para identificar um vício não é apenas a frequência das apostas, mas o impacto que esse comportamento causa na vida pessoal, profissional e familiar.

Dr. Raphael esclarece que a dependência em apostas possui reconhecimento médico e classificação própria.

"A gente chama isso de jogo patológico. Existe uma classificação específica e ele é considerado um transtorno mental", afirmou.

Ele ressalta que nem toda pessoa que aposta desenvolverá dependência, mas estima-se que uma parcela significativa dos jogadores apresente risco.

"Hoje estima-se que cerca de 1,4 milhão de brasileiros tenham algum problema relacionado ao jogo patológico", destacou.

Entre os principais sintomas observados em pacientes estão a ansiedade, a necessidade constante de apostar e uma sensação intensa de prazer apenas pelo ato de realizar a aposta.

"Eu acompanho pessoas que, mesmo perdendo dinheiro, sentem uma enorme sensação de prazer simplesmente ao apertar o botão para apostar. Isso já é um sinal importante de alerta", explicou.

Além da euforia durante o jogo, ele cita outros sintomas frequentes:

  • ansiedade constante;
  • irritabilidade;
  • tristeza e sintomas depressivos;
  • isolamento social;
  • desejo intenso de continuar apostando;
  • dificuldade em controlar o comportamento.

Embora o jogo exista há muitos anos, o especialista afirma que a tecnologia transformou completamente a dimensão do problema.

"Antes a pessoa precisava se deslocar até um local para jogar. Hoje ela aposta de qualquer lugar: no trabalho, em casa ou durante qualquer momento do dia. Essa facilidade aumentou muito os casos de dependência", observou.

Segundo Dr. Raphael, o celular tornou o jogo disponível durante 24 horas, favorecendo recaídas e dificultando o controle do comportamento.

O psiquiatra também chamou atenção para os riscos entre adolescentes e jovens adultos.

"Os indivíduos mais jovens, que têm maior acesso às redes sociais e à internet, acabam tendo um risco muito maior de desenvolver esse tipo de comportamento", explicou.

Ele destaca ainda que pessoas diagnosticadas com Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) apresentam maior predisposição.

"São pacientes que buscam constantemente dopamina, recompensa e sensações prazerosas. Por isso têm um risco maior de desenvolver qualquer tipo de dependência, inclusive o jogo patológico", afirmou.

Na maioria das vezes, segundo o médico, são os familiares que percebem os primeiros sinais.

Entre os comportamentos mais comuns estão:

  • esconder o celular;
  • ocultar movimentações financeiras;
  • irritabilidade sem motivo aparente;
  • isolamento;
  • endividamento frequente;
  • empréstimos constantes.

Dr. Raphael revelou que já acompanhou casos de pessoas que chegaram a cometer irregularidades no ambiente de trabalho para alimentar o vício.

"Já acompanhamos indivíduos que trabalhavam em caixas de empresas, eram funcionários de extrema confiança e passaram a retirar dinheiro para manter o comportamento de apostar", contou.

O tratamento varia conforme a faixa etária.

Em crianças e adolescentes, a prioridade costuma ser a psicoterapia, especialmente a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e grupos terapêuticos.

Já entre adultos, a abordagem costuma combinar psicoterapia e medicamentos.

"Hoje nós temos medicamentos que ajudam a diminuir a intensidade desses sintomas, além da psicoterapia, atividade física, alimentação adequada e terapias em grupo", explicou.

Dr. Raphael enfatiza que o apoio familiar exerce papel decisivo na recuperação.

"A família precisa entrar como parceira, e não como quem vai julgar. Muitos pacientes chegam ao consultório com muita vergonha, normalmente levados pelos próprios familiares depois que o problema é descoberto", disse.

Segundo ele, ambientes acolhedores aumentam significativamente as chances de sucesso no tratamento.

Questionado sobre ferramentas que permitem bloquear o CPF em plataformas de apostas, o psiquiatra avaliou a medida de forma positiva.

"Reduzir o acesso dessas pessoas às plataformas diminui as chances de recaída. Funciona da mesma forma que reduzir a exposição ao álcool ou ao cigarro para quem enfrenta uma dependência", afirmou.

Dr. Raphael deixou um recado para quem percebe que perdeu o controle sobre as apostas.

"O primeiro passo para tratar qualquer dependência é reconhecer que existe um problema. Muitas pessoas não conseguem fazer isso. Se você está jogando com frequência e isso está trazendo prejuízos, não tenha vergonha de procurar ajuda. Isso é um transtorno mental e existe tratamento", concluiu.

O psiquiatra informou ainda que atende na Clínica Vivace, que oferece atendimento ambulatorial, psicoterapia, grupos terapêuticos e Hospital Dia para pacientes que necessitam de acompanhamento intensivo.

Compartilhar:

Nós utilizamos cookies para aprimorar e personalizar a sua experiência em nosso site. Ao continuar navegando, você concorda em contribuir para os dados estatísticos de melhoria. Conheça nossa Política de Privacidade e consulte nosso Termos de Uso.