Especialista alerta que a dependência em bets pode causar ansiedade, depressão, endividamento e perda de patrimônio
O crescimento das apostas esportivas online tem provocado um aumento significativo no número de pessoas que desenvolvem dependência em jogos. O alerta é do psiquiatra Dr. Raphael Silva, que participou do programa Jornal do Meio Dia para falar sobre os impactos psicológicos do vício em bets e afirmou que o problema já se tornou uma realidade frequente nos consultórios.
Segundo o especialista, a popularização das plataformas de apostas e o fácil acesso por meio dos celulares fizeram crescer rapidamente os casos de dependência, com consequências que vão desde o endividamento até a perda de patrimônio e o comprometimento da saúde mental.
"É uma problemática gigante que a gente vem passando no consultório. Eu já recebo pacientes que perderam casa, automóvel e pacientes que perderam mais de um milhão de reais com apostas", relatou.

Embora atenda pessoas de diversas regiões por meio da telemedicina, Dr. Raphael afirma que os prejuízos financeiros e emocionais se repetem em praticamente todos os casos.
O psiquiatra explica que o jogo deixa de ser apenas entretenimento quando começa a provocar prejuízos concretos na vida da pessoa.
"Assim como acontece com álcool, cocaína ou qualquer outro vício, o comportamento passa a ser problemático quando começa a gerar prejuízo. A pessoa deixa de trabalhar, compromete as finanças, pede dinheiro emprestado e se endivida para continuar jogando", explicou.
Segundo ele, o principal critério para identificar um vício não é apenas a frequência das apostas, mas o impacto que esse comportamento causa na vida pessoal, profissional e familiar.
Dr. Raphael esclarece que a dependência em apostas possui reconhecimento médico e classificação própria.
"A gente chama isso de jogo patológico. Existe uma classificação específica e ele é considerado um transtorno mental", afirmou.
Ele ressalta que nem toda pessoa que aposta desenvolverá dependência, mas estima-se que uma parcela significativa dos jogadores apresente risco.
"Hoje estima-se que cerca de 1,4 milhão de brasileiros tenham algum problema relacionado ao jogo patológico", destacou.
Entre os principais sintomas observados em pacientes estão a ansiedade, a necessidade constante de apostar e uma sensação intensa de prazer apenas pelo ato de realizar a aposta.
"Eu acompanho pessoas que, mesmo perdendo dinheiro, sentem uma enorme sensação de prazer simplesmente ao apertar o botão para apostar. Isso já é um sinal importante de alerta", explicou.
Além da euforia durante o jogo, ele cita outros sintomas frequentes:
Embora o jogo exista há muitos anos, o especialista afirma que a tecnologia transformou completamente a dimensão do problema.
"Antes a pessoa precisava se deslocar até um local para jogar. Hoje ela aposta de qualquer lugar: no trabalho, em casa ou durante qualquer momento do dia. Essa facilidade aumentou muito os casos de dependência", observou.
Segundo Dr. Raphael, o celular tornou o jogo disponível durante 24 horas, favorecendo recaídas e dificultando o controle do comportamento.
O psiquiatra também chamou atenção para os riscos entre adolescentes e jovens adultos.
"Os indivíduos mais jovens, que têm maior acesso às redes sociais e à internet, acabam tendo um risco muito maior de desenvolver esse tipo de comportamento", explicou.
Ele destaca ainda que pessoas diagnosticadas com Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) apresentam maior predisposição.
"São pacientes que buscam constantemente dopamina, recompensa e sensações prazerosas. Por isso têm um risco maior de desenvolver qualquer tipo de dependência, inclusive o jogo patológico", afirmou.
Na maioria das vezes, segundo o médico, são os familiares que percebem os primeiros sinais.
Entre os comportamentos mais comuns estão:
Dr. Raphael revelou que já acompanhou casos de pessoas que chegaram a cometer irregularidades no ambiente de trabalho para alimentar o vício.
"Já acompanhamos indivíduos que trabalhavam em caixas de empresas, eram funcionários de extrema confiança e passaram a retirar dinheiro para manter o comportamento de apostar", contou.
O tratamento varia conforme a faixa etária.
Em crianças e adolescentes, a prioridade costuma ser a psicoterapia, especialmente a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e grupos terapêuticos.
Já entre adultos, a abordagem costuma combinar psicoterapia e medicamentos.
"Hoje nós temos medicamentos que ajudam a diminuir a intensidade desses sintomas, além da psicoterapia, atividade física, alimentação adequada e terapias em grupo", explicou.
Dr. Raphael enfatiza que o apoio familiar exerce papel decisivo na recuperação.
"A família precisa entrar como parceira, e não como quem vai julgar. Muitos pacientes chegam ao consultório com muita vergonha, normalmente levados pelos próprios familiares depois que o problema é descoberto", disse.
Segundo ele, ambientes acolhedores aumentam significativamente as chances de sucesso no tratamento.
Questionado sobre ferramentas que permitem bloquear o CPF em plataformas de apostas, o psiquiatra avaliou a medida de forma positiva.
"Reduzir o acesso dessas pessoas às plataformas diminui as chances de recaída. Funciona da mesma forma que reduzir a exposição ao álcool ou ao cigarro para quem enfrenta uma dependência", afirmou.
Dr. Raphael deixou um recado para quem percebe que perdeu o controle sobre as apostas.
"O primeiro passo para tratar qualquer dependência é reconhecer que existe um problema. Muitas pessoas não conseguem fazer isso. Se você está jogando com frequência e isso está trazendo prejuízos, não tenha vergonha de procurar ajuda. Isso é um transtorno mental e existe tratamento", concluiu.
O psiquiatra informou ainda que atende na Clínica Vivace, que oferece atendimento ambulatorial, psicoterapia, grupos terapêuticos e Hospital Dia para pacientes que necessitam de acompanhamento intensivo.