Especialistas explicam como a técnica atua na regulação do sistema nervoso e pode auxiliar no tratamento de dores crônicas, cicatrizes e outras condições de saúde
A terapia neural foi o tema do quadro "De Mulher pra Mulher", no Jornal do Meio Dia, da Rádio Princesa FM. A ginecologista Dra. Cláudia Souza recebeu a cirurgiã-dentista Dra. Cláudia Silveira, especialista em medicina integrativa e terapia neural, para esclarecer como a técnica funciona e quais são suas aplicações, especialmente na saúde da mulher.
Dra. Cláudia Souza contextualizou o conceito de medicina integrativa, destacando que a prática é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
"A medicina integrativa é a união dos tratamentos tradicionais, como medicamentos e cirurgias, com terapias complementares que buscam o equilíbrio do corpo, da mente e do espírito."
Segundo ela, apesar de a terapia neural ainda ser pouco conhecida entre profissionais da saúde, trata-se de um método com ampla aplicabilidade clínica.

Dra. Cláudia Silveira explicou que sua trajetória profissional sempre esteve voltada para compreender o paciente de forma integral, ultrapassando os limites da odontologia tradicional.
"Eu nunca gostei da ideia de que o cirurgião-dentista cuida apenas da boca. A boca faz parte do corpo e não podemos mais dividir o ser humano em partes."
A especialista contou que buscou formação na Europa, onde atualmente também atua profissionalmente, especialmente na Itália, Alemanha e Suíça.
"Fiz mestrado na Universidade Federal de Barcelona em terapia neural. Hoje atuo principalmente em Roma, buscando sempre capacitação para entender o paciente como um todo."
Segundo ela, a experiência internacional reforçou a importância de um atendimento multidisciplinar entre médicos, dentistas e outros profissionais da saúde.
De acordo com Dra. Cláudia Silveira, a terapia neural faz parte da chamada medicina reguladora e completa cem anos de existência.
Ela explicou que a técnica surgiu na Alemanha, descoberta pelos irmãos Huneke, médicos que perceberam que pequenas aplicações de anestésico local em baixíssima concentração conseguiam provocar respostas em regiões distantes do corpo.
"Ela promove um 'reset' na parte elétrica da célula. Nós somos seres elétricos e toda nossa rede neural conecta músculos, órgãos e nervos. A terapia neural ajuda o corpo a se autorregular."
A profissional ressaltou que o objetivo não é anestesiar o paciente.
"A procaína é utilizada em concentração muito baixa. Ela não atua como anestésico. O objetivo é regular o sistema nervoso."
Um dos principais conceitos apresentados durante a entrevista foi o de campo interferente.
Segundo a especialista, traumas físicos e emocionais podem alterar o funcionamento do sistema nervoso.
"Quando uma região sofre uma interferência, seja por cirurgia, acidente ou trauma emocional, ocorre uma despolarização do neurônio. Aquela área passa a funcionar como um campo interferente."
Ela comparou o funcionamento do organismo a uma rede elétrica.
"É como um fio parcialmente rompido. A energia continua passando, mas com ruído. Quando esse ruído aumenta ao longo da vida, começam a surgir os sintomas."
Durante a conversa, Dra. Cláudia Silveira afirmou que um dos princípios da medicina integrativa é investigar além da queixa principal do paciente.
"90% das causas não estão onde aparecem os sintomas."
Segundo ela, uma dor pélvica, por exemplo, pode ter origem em alterações intestinais, cicatrizes ou outros fatores distantes da região dolorida.
"O paciente procura o profissional pelo sintoma. Mas o problema quase nunca está onde dói."
Ela explicou que, por isso, utiliza ferramentas de avaliação que permitem identificar a verdadeira origem das alterações do organismo antes de iniciar qualquer tratamento.
Outro ponto abordado foi a influência das cicatrizes sobre o funcionamento do sistema nervoso.
Segundo a especialista, cesarianas, abdominoplastias, queimaduras, acidentes e até extrações dentárias podem provocar interrupções na comunicação neural.
"Toda cicatriz provoca uma lesão em terminações nervosas. Isso pode gerar um bloqueio no fluxo elétrico do organismo."
Ela afirmou que esses bloqueios podem favorecer dores lombares, enxaquecas, alterações emocionais e até doenças autoimunes em pessoas predispostas.
"A terapia neural ajuda justamente a restaurar essa comunicação elétrica."
Durante a entrevista, Dra. Cláudia Souza observou que muitas mulheres vivem sob estresse constante, o que favorece alterações no equilíbrio entre os sistemas nervosos simpático e parassimpático.
"Quando a pessoa vive acelerada o tempo todo, em estresse crônico, ela permanece em estado de alerta permanente."
Complementando, Dra. Cláudia Silveira afirmou que as mulheres costumam acumular diversos fatores físicos e emocionais ao longo da vida.
"Partos, cirurgias, perdas, responsabilidades familiares... tudo isso pode gerar campos interferentes que, somados, acabam desencadeando doenças."
As especialistas também defenderam uma abordagem mais humanizada durante as consultas.
Segundo Dra. Cláudia Souza, estudos mostram que muitos médicos interrompem o paciente poucos segundos após o início do relato.
"Depois dos primeiros segundos, muitos profissionais já começam a formular o diagnóstico sem ouvir toda a história."
Para Dra. Cláudia Silveira, compreender o histórico de vida do paciente é parte fundamental do tratamento.
"A história da Maria é diferente da história de Bianchi. Cada organismo responde de uma forma. Se não identificarmos a causa, vamos tratar apenas o efeito."
Dra. Cláudia Silveira ressaltou que a terapia neural deve ser realizada exclusivamente por profissionais de saúde habilitados e com formação específica.
"É um procedimento seguro quando realizado por profissionais altamente capacitados."
Ela explicou que existem poucas contraindicações, como alergias específicas, miastenia grave e alguns distúrbios de coagulação, situações que devem ser avaliadas previamente.
A especialista destacou que a terapia neural amplia as possibilidades de cuidado na medicina integrativa.
"Temos muitos recursos para regular o sistema nervoso central, prevenir problemas de saúde e melhorar a qualidade de vida das pessoas."