07/08/2026
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Uso inadequado de antibióticos favorece avanço de superbactérias entre crianças, alerta infectologista

Resistência bacteriana ameaça tratamentos e pode aumentar casos graves e mortalidade infantil nos próximos anos

Victória SilvaRedação: Victória Silva
JP MirandaReportagem: JP Miranda
segunda-feira, 27 de julho de 2026 às 13:56
Imagem de Uso inadequado de antibióticos favorece avanço de superbactérias entre crianças, alerta infectologista
Foto: Freepik

O avanço da resistência antimicrobiana entre crianças tem preocupado especialistas em saúde e já é considerado uma das maiores ameaças à saúde pública mundial. Um estudo publicado na revista JAMA Pediatrics aponta que as bactérias responsáveis pelas principais infecções pediátricas estão se tornando cada vez mais resistentes aos antibióticos, impulsionadas pelo uso inadequado desses medicamentos e pelas dificuldades de acesso a diagnósticos precisos.

Segundo a infectologista pediátrica Dra. Normeide Pedreira, o crescimento das chamadas superbactérias está diretamente relacionado ao uso excessivo e incorreto de antibióticos, além das características próprias da infância.

"O aumento das superbactérias em crianças é consequência do uso excessivo e incorreto de antibióticos, da imaturidade do sistema imunológico infantil e da falta de opções medicamentosas específicas aprovadas para pediatria. Nem sempre o remédio que serve para o adulto também vai servir para a criança."

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A médica explica que o cenário preocupa porque as infecções provocadas por bactérias multirresistentes evoluem rapidamente e podem ter consequências graves.

"Nós, no setor pediátrico, ficamos muito preocupados porque as bactérias multirresistentes provocam infecções que se agravam muito rapidamente, com alto risco de óbito ou de sequelas permanentes. Muitas vezes essas crianças precisam usar antibióticos cada vez mais fortes, que nem sempre são adequados para sua idade."

Caso a resistência aos antibióticos continue crescendo no ritmo atual, a especialista alerta que medicamentos considerados de primeira escolha poderão deixar de funcionar até mesmo contra infecções comuns.

"A principal consequência será a perda da eficácia dos antibióticos de primeira linha para infecções comuns. Essas doenças deixarão de responder aos tratamentos habituais, aumentando a mortalidade infantil por infecções graves, como pneumonias."

Ela destaca ainda que a limitação de medicamentos seguros para crianças poderá agravar ainda mais o problema.

"As infecções hospitalares se disseminam muito rápido e nem todos os tipos de antibióticos estão indicados para crianças. Isso pode levar a internações mais longas, necessidade de medicamentos cada vez mais fortes e procedimentos mais invasivos."

Além da resistência bacteriana, a infectologista chama atenção para outro efeito preocupante: os impactos do uso frequente de antibióticos sobre a microbiota intestinal, considerada fundamental para o funcionamento do sistema imunológico.

"Hoje sabemos que o principal órgão da imunidade é a microbiota intestinal. Quando usamos muitos antibióticos, principalmente os mais fortes, podemos destruir essas bactérias benéficas, aumentando o risco de doenças inflamatórias, alérgicas e até doenças crônicas no futuro."

Para Dra. Normeide, o enfrentamento da resistência bacteriana depende tanto da prescrição responsável pelos profissionais de saúde quanto da conscientização das famílias.

"A responsabilidade não é apenas dos pais, mas principalmente dos médicos que prescrevem antibióticos para situações inadequadas, como gripes e outras infecções virais, que não melhoram com esse tipo de medicamento."

Ela também critica o uso de antibióticos mais potentes em casos leves.

"Em alguns serviços, têm sido utilizados antibióticos potentes para infecções que poderiam ser tratadas com medicamentos mais simples, contribuindo para aumentar a resistência bacteriana."

Em relação às famílias, a médica alerta para os riscos da automedicação.

"Embora exista uma legislação que exija receita médica, sabemos que muitos pais ainda conseguem comprar antibióticos e iniciam o tratamento por conta própria, o que é um grande erro."

A especialista recomenda que os pais mantenham acompanhamento regular com um pediatra e evitem buscar atendimento de emergência apenas pelo início da febre.

"As famílias precisam ter um pediatra de confiança, seguir suas orientações para o manejo da febre em casa e conhecer os sinais de alerta. Não é porque a criança começou a ter febre que deve ir imediatamente à emergência."

Segundo ela, a procura precoce por serviços de urgência pode favorecer prescrições desnecessárias.

"Hoje é muito raro uma criança sair de um serviço de urgência e emergência sem uma receita de antibiótico, mesmo quando não existe uma infecção bacteriana."

A infectologista reforça que as crianças pequenas merecem atenção especial devido à maior fragilidade do sistema imunológico.

"As crianças representam um grupo de maior preocupação porque são muito mais vulneráveis. Essa fragilidade pode levar a complicações como infecções generalizadas, a exemplo da sepse, que tem um prognóstico bastante grave."

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